Autor: Marcos Meniconi (Cardiologista Clínico e Intervencionista)
Que homens e mulheres são diferentes, todo mundo sabe.
Na medicina, apesar de discutirmos fatores de risco sexo-específicos e respostas distintas aos tratamentos, poucos de nós realmente incorporam esse refinamento na prática clínica.
E tem mais: a histórica sub-representação das mulheres nos estudos, somada às diferenças na prevalência de comorbidades, também impacta diretamente o cuidado que oferecemos.
Homens e mulheres aparentemente semelhantes acabam sendo tratados da mesma forma quando, na verdade, deveriam ser manejados de maneira distinta para alcançarmos os melhores desfechos.
Na doença isquêmica do coração (do inglês, IHD), isso não é diferente.
O cuidado começa, inclusive, pela nomenclatura. Ao migrarmos do conceito tradicional de doença arterial coronária (DAC) para IHD, ampliamos o olhar para além da obstrução epicárdica, incorporando mecanismos como disfunção microvascular e alterações funcionais como causas de angina.
E os números chamam atenção: a IHD é responsável por cerca de 34% das mortes por doença cardiovascular, com um custo anual estimado em €77 bilhões.
À primeira vista, a mortalidade é aproximadamente duas vezes maior em homens. Mas quando ajustamos esses dados pela prevalência, o cenário muda, e muito. Em diversos países, as mulheres apresentam taxas de mortalidade padronizadas por idade consistentemente mais altas.
👉🏼 Ou seja: menos mulheres adoecem, mas aquelas que adoecem morrem mais.
Antes de avançarmos, vale um ponto conceitual importante: sexo e gênero não são sinônimos.
Sexo refere-se aos aspectos biológicos (genética, hormônios, anatomia). Já o gênero envolve construções socioculturais, como comportamentos, papéis e identidade.
Na IHD, essa interação é tudo menos simples. Fatores biológicos se misturam a padrões de comportamento e acesso ao cuidado, tornando difícil separar onde termina o sexo e começa o gênero.
No fim das contas, pouco importa quem “leva mais culpa”: o que importa é reconhecer que essa combinação molda, de forma decisiva, o risco, a apresentação e os desfechos das mulheres com doença isquêmica.
E se a gente não enxergar isso… vai continuar errando.
Cuidemos bem de nossas mulheres.
📚 Em tempo, as nossas referências ficam por conta de 2 belas revisões do European Journal of Cardiology:
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