A importância do tempo
Tempo no infarto, no manejo da obesidade e na tratamento da IC
Todo emagrecimento é saudável?
por Diandro Mota
Estamos no caminho do emagrecimento… ou da melhora metabólica?
O cenário do tratamento da obesidade e da prevenção cardiovascular já não é mais o mesmo. Mas será que estamos olhando para o desfecho certo?
Um estado da arte publicado no European Heart Journal traz uma reflexão importante: os agonistas de GLP-1 e os duais GIP/GLP-1 não estão apenas promovendo perda de peso, estão remodelando a composição corporal. E isso pode mudar a forma como interpretamos “sucesso” no tratamento.
Não há mais dúvidas, eles funcionam… e muito bem!
Perda de peso na casa de 15–25%, redução consistente de eventos cardiovasculares e melhora metabólica robusta, e tudo aqui que você já sabe.
Mas… existe um “porém” que começa a ganhar protagonismo: uma parte relevante dessa perda não é gordura. É músculo.
Os dados mostram que até 20–30% da perda ponderal pode vir de massa magra. Em estudos com semaglutida, por exemplo, a perda de massa magra chega a ~9,7%, enquanto a de gordura gira em torno de ~19,3%. Com tirzepatida, cerca de um quarto do peso perdido é tecido magro.
Ou seja: nem toda perda de peso é metabolicamente “inteligente”.
E aqui está o ponto central.
Perder músculo significa potencialmente:
↓ resistência metabólica;
↓ capacidade funcional;
↓ benefício cardiovascular de longo prazo.
Você pode perder peso… e perder eficiência metabólica junto.
Mas calma, o saldo ainda é positivo.
Mesmo com alguma perda de massa magra, os agonistas de GLP-1 continuam entregando o que mais importa: redução de eventos cardiovasculares (como vimos no SELECT, com ~20% de redução de MACE), melhora da pressão arterial, do perfil lipídico e da inflamação, além de efeitos diretos no endotélio e no miocárdio.
Então como trabalhar com essa “balança metabólica” na prática?
Treino de resistência não é opcional. É a principal estratégia para preservar massa muscular e deve fazer parte da rotina de qualquer paciente em uso de GLP-1.
A ingestão proteica também importa: algo em torno de 1,2–1,5 g/kg/dia, especialmente em pacientes com baixa ingestão habitual.
E podemos ir além, com estratégias complementares como creatina, leucina ou HMB, além da combinação de treino aeróbico com força.
Simples. E, ainda assim, frequentemente negligenciado.
Mas o mais interessante talvez esteja no que vem pela frente. O pipeline das terapias antiobesidade já começa a ir além da balança.
Inibidores de miostatina, moduladores androgênicos seletivos (SARMs) e combinações com GLP-1 estão sendo estudados com um objetivo claro: perder gordura enquanto preserva, ou até aumenta, massa muscular.
Por fim, o futuro da prevenção cardiovascular não é sobre peso, é sobre composição corporal, função e metabolismo.
Tempo é músculo… e o cronômetro começa antes
por Marcos Meniconi
Não existe premissa maior na cardiologia: quanto mais rápido repefundirmos a artéria culpada em um IAM com supradesnivelamento do ST, melhor o prognóstico.
Afinal, tempo é musculo.
Agora imagine a artéria chegar já aberta na angiografia? Melhor ainda, não?! Claro que sim!
Um corpo crescente de evidência, incluindo uma metanálise com mais de 70 mil pacientes, mostra que a reperfusão espontânea da ARI está associada a maior sobrevida.
O problema óbvio: isso acontece em apenas 15–25% dos casos.
Ou seja, o grande desafio passa a ser: conseguimos “abrir” essa artéria antes mesmo do cateterismo?
Foi exatamente isso que o estudo HEPARIN STEMI, publicado na Circulation, tentou responder:
Os autores avaliaram o impacto da administração pré-hospitalar de heparina não fracionada (HNF) na reperfusão antes da ICP, ainda no primeiro contato médico.
O desenho foi direto ao ponto: um ensaio clínico randomizado, aberto, incluindo pacientes com IAMCSST com até 6 horas de sintomas, divididos em 2 grupos:
HNF em bólus no pré-hospitalar (70–100 UI/kg), seguida de ajuste durante a ICP;
manejo habitual da anticoagulação
O desfecho primário foi de fluxo TIMI 2–3 na ARI na angiografia inicial.
Com cerca de 600 pacientes incluídos, os grupos eram bem comparáveis, com tempo semelhante até a angiografia (~145–150 minutos). O intervalo entre a heparina e o cateterismo foi de aproximadamente 60 minutos.
E aqui está o ponto-chave:
Fluxo TIMI 2–3 antes da ICP ocorreu em 43% dos pacientes tratados precocemente com heparina, contra 27% no grupo controle (RR 1,59; p<0,001).
Ou seja: mais artérias abertas antes mesmo da intervenção.
E o preço disso? Nenhum aumento relevante de sangramento maior (BARC 3–5: 2,4% vs 2,0%; p=0,789).
Na prática, a heparina precoce parece ser uma estratégia simples, barata e potencialmente eficaz para melhorar a patência da ARI antes da ICP.
Ainda não temos poder estatístico para afirmar impacto em desfechos clínicos duros, como mortalidade, mas o sinal em desfechos substitutos é consistente e biologicamente plausível.
Depois de décadas refinando o tratamento intra-hospitalar do IAM, talvez o próximo salto de prognóstico esteja… antes de chegar ao hospital.
Ainda atrasados
por Maria Júlia Souto
Em quanto tempo conseguimos otimizar o quarteto fantástico do paciente com IC com fração de ejeção reduzida (IC FEr)? Essa pergunta é essencial e reflete impacto direto na sobrevida.
E se eu te disser que a pergunta real, na prática, ainda é: “ estamos conseguindo chegar à terapia quádrupla?”.
Foi exatamento esse esse o alerta trazido por um estudo publicado no JAMA Cardiology. Na vida real, a distância entre diretriz e prática no manejo da IC FEr ainda é grande.
Em uma coorte norte-americana com mais de 52 mil pacientes do Veterans Health Administration diagnosticados com IC FEr de início recente, apenas 21,2% atingiram terapia quádrupla ao longo de um seguimento mediano de quase 3 anos.
E mesmo quando ela acontece, demora: o tempo mediano até a otimização foi de 197 dias (cerca de 6 meses, para os preguiçosos da matemática rs), com grande variabilidade entre os pacientes.
Agora vem o dado que mais pesa: quase 31% dos pacientes morreram durante o seguimento, e impressionantes 91% dessas mortes ocorreram sem que o paciente tivesse recebido terapia quádrupla.
O estudo ajuda a entender o porquê:
Mesmo em um sistema com custos relativamente baixos, a coparticipação nas medicações reduziu em 8% a chance de atingir terapia completa. Pequenas barreiras financeiras, grande impacto clínico.
Não houve diferença entre homens e mulheres. Por outro lado, pacientes negros e hispânicos apresentaram maior probabilidade de atingir terapia quádrupla, refletindo possíveis diferenças de perfil clínico ou até menor inércia terapêutica.
Além disso, o local do diagnóstico também importa: pacientes diagnosticados no ambulatório tiveram maior taxa de otimização do que aqueles diagnosticados durante internação (22,2% vs 14,2%).
O conceito mais interessante do estudo é de que o tempo até atingir a TTQ pode, e deve, ser encarado como um novo indicador de qualidade assistencial.
Porém, há uma luz no fim do túnel: o tempo para otimização vem caindo ao longo dos anos (chegando a cerca de 110 dias em 2023), possivelmente refletindo a incorporação mais recente dos inibidores de SGLT2 nas diretrizes.
No fim, o problema da IC FEr não está na falta de evidência, e sim na falta da sua aplicação e na sua celeridade. Nós ainda estamos atrasados.
Adeus canetas?
Caiu na Mídia
Estamos próximos de uma nova era das terapias antiobesidade? Nesta semana, a mídia explodiu com a notícia: a FDA aprovou a orforgliprona, a versão oral do Mounjaro, desenvolvida pela própria Eli Lilly.
Grave esse nome: Foundayo. Ele chega com a promessa de uma perda de peso superior a 10% em pouco mais de 1 ano de uso, em uma formulação oral, sem restrições alimentares ou necessidade de jejum.
Um ganho claro de praticidade quando comparado à semaglutida oral (como o Wegovy comprimido, ainda em análise no Brasil, ou o Rybelsus).
A validação clínica veio com o estudo ATTAIN-1, publicado em setembro de 2025 no NEJM. Nele, a redução média de peso foi de ~11,2% com a dose de 36 mg na semana 72, acompanhada de benefícios cardiometabólicos relevantes: redução de pressão arterial, triglicerídeos e colesterol não-HDL, além de melhora glicêmica mesmo em pacientes sem diabetes. Tudo isso com um perfil de segurança semelhante ao dos demais agonistas do GLP-1.
Em termos de magnitude, ainda fica atrás das formulações subcutâneas: a tirzepatida alcança perdas de ~20–21%, enquanto a semaglutida gira em torno de ~15–16%.
Mas aqui está o ponto-chave: a via oral pode redefinir o cenário.
Ela traz uma potencial democratização do uso dos agonistas do GLP-1, com maior chance de adesão, especialmente ao simplificar a posologia e contornar limitações práticas da semaglutida oral, que hoje ainda exige um ritual pouco amigável ao paciente.
Obs.: ninguém ainda falou do “valor” dessa democratização rs 💸.
O Foundayo surge, portanto, como uma opção interessante, possivelmente mais alinhada a pacientes com obesidade menos avançada ou com maior dificuldade de adesão às terapias injetáveis.
Agora, o próximo capítulo: precisamos de dados de desfechos cardiovasculares e da liberação no Brasil para entender o real papel dessa medicação no nosso arsenal.
Uma coisa é certa: a corrida das terapias antiobesidade está longe de acabar.
Fique por dentro
🖊️ Entender os agonistas de GLP-1 já virou pré-requisito na cardiologia moderna. Revisão do NEJM levanta as principais evidências das famosas “canetas emagrecedoras” e mostra que, além do controle glicêmico e perda de peso, essas drogas reduzem eventos cardiovasculares e progressão renal.
🫁 Menos rótulo, mais mecanismo: nova forma de enxergar a hipertensão pulmonar. Revisão publicada no JACC propõe trocar a classificação em 5 grupos para um modelo prático baseado em 2 mecanismos dominantes: microvasculopatia vs. doença de grandes vasos.
🎭 Após o SCA, o risco muda de cara com o tempo. Em coorte chinesa com >1,5 milhão de pacientes, mortes cardiovasculares predominam no início, mas após 1 ano as não cardiovasculares crescem, com câncer liderando. Idade avançada, DRC e IC aumentam risco, enquanto estatinas protegem, reforçando a necessidade de cuidado integral no longo prazo.
🧬 Edição gênica saiu da ficção e está batendo na porta da cardiologia. Statement recente destaca o avanço acelerado de terapias com CRISPR, com potencial curativo para doenças monogênicas como hipercolesterolemia e amiloidose, especialmente via alvos hepáticos.
🤖 IA no ECG pode ajudar a não perder o infarto “oculto”. Em estudo com IAMsSST de alto risco, o AI-ECG melhorou a capacidade de “rule in” para oclusão coronariana aguda e reduziu falsos positivos vs. prática padrão.
🫀 Ventrículo direito: como avaliar a câmara esquecida? Consenso da AHA demonstra tecnologias para análise metabólica, molecular e de imagem do ventrículo direito. Vale a pena conferir.
🎯 Doença cardio-renal-metabólica registrada pela óptica do ecocardiograma. Estudo determina o remodelamento e evolução para IC de pacientes com disfunção renal e alterações metabólicas.
🍔 Nada contra seu nutrólogo! Foi publicado esta semana o guia de dieta da American Heart Association de 2026 visando à prevenção cardiovascular. Um documento para todos os médicos e pacientes.
💊 Quarteto fantástico: é possível aderir? Estudo sueco demonstrou que apenas 60% dos pacientes com ICFEr continuam recebendo as quatro medicações em 1 ano.
🏃🏾 Intensidade x volume de exercício. Estudo multicêntrico sugere que exercícios intensos apresentam maior benefício que volume total de atividade física moderada.
⏳ NOBLE trial: 10 anos! Seguimento de 10 anos do estudo NOBLE que comparou angioplastia de TCE e o tratamento cirúrgico, demonstrou mortalidade semelhante entre os dois tratamentos.





