Autora: Maria Júlia Souto (cardiologista e especialista em imagem cardiovascular pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia)
Será que o primeiro sinal de que você está ficando “velho” na medicina é quando aquilo que você conduzia quase de olhos fechados começa, de repente, a mudar?
👵🏼 Se essa for a definição… talvez seja hora de eu me preocupar.
Foi exatamente assim que me senti ao ler a nova diretriz de Tromboembolismo Pulmonar (TEP) da AHA/ACC 2026 .
O TEP sempre foi aquela entidade que a gente aprende a respeitar cedo na formação. Dor pleurítica, dispneia súbita, taquicardia. Wells, D-dímero, angioTC.
Estratifica em baixo risco, intermediário, alto risco ➡️ Anticoagula ➡️ Trombolisa se chocar ➡️ Próximo caso.
Era quase um roteiro de plantão.
Só que a nova diretriz chega e basicamente diz: ✋🏼 “Calma lá. Não é tão simples assim.”
E não é mesmo.
O documento não é uma atualização incremental. Ele reorganiza o raciocínio. Introduz uma nova classificação clínica, as AHA/ACC Acute PE Clinical Categories (A–E), que abandona a lógica simplista do “baixo vs alto risco” e passa a integrar gravidade clínica, instabilidade hemodinâmica, comprometimento respiratório, biomarcadores e função de ventrículo direito em um espectro contínuo de risco.
Ou seja: o TEP deixa de ser apenas um evento trombótico pulmonar e passa a ser encarado como uma síndrome cardiovascular aguda, dinâmica, com múltiplas camadas de gravidade.
E é exatamente essa virada de chave que vamos destrinchar a partir de agora.


