ACC 2026
As novidades da cardiologia no primeiro grande congresso do ano
Bom e velho ACC… sabemos como você gosta de começar o ano fazendo barulho! 🎺
E não deu outra. O primeiro grande congresso de 2026 invadiu a terra do Jazz para trazer tudo aquilo que é música aos ouvidos do cardiologista: grandes novidades terapêuticas, polêmicas e questionamentos de antigos dogmas.
Quem segue a Doze por Oito, pôde acompanhar tudo de perto, em uma imersão completa com entrevistas, bastidores, discussões quentes. Para quem não conseguiu, calma… a DozeNews resolve isso pra você.
A gente dá muita “colher de sopa” para vocês, hein?! rs
Vamos aos highlights!
Dia 1 (28/03)
Pode colocar um belo jazz para tocar porque o primeiro dia do ACC já começou como o cardiologista gosta: com respostas a grandes perguntas… e polêmica em alta!
Três estudos abriram o congresso, cada um em um território diferente da cardiologia, mas todos orbitando uma mesma pergunta: estamos realmente tratando da melhor forma possível, ou ainda existe espaço para fazer melhor?
O primeiro a subir ao palco foi o STEMI-DTU, atacando um dos pilares mais sólidos da cardiologia moderna: o tempo porta-balão.
Sabemos que, mesmo com reperfusão rápida, muitos pacientes evoluem com grandes áreas de infarto e que a tensão da parede ventricular desempenha um papel central nisso. Estudos pré-clínicos vinham sugerindo que “descomprimir” o ventrículo esquerdo antes da reperfusão, mesmo que à custa de um pequeno atraso, poderia reduzir o tamanho do infarto.
A proposta, portanto, era quase contraintuitiva: esperar para fazer melhor.
Mas, quando colocado à prova em humanos, o resultado foi claro: não houve redução do tamanho do infarto, e ainda houve mais complicações relacionadas ao procedimento.
No fim das contas, o velho mantra segue firme:
👉 no IAMcSST, tempo continua sendo músculo, e talvez também bom senso.
Na sequência, entramos em um terreno mais nebuloso: a embolia pulmonar de risco intermediário, aquele “limbo clínico” onde o paciente não está em choque… mas também não está exatamente tranquilo.
O estudo HI-PEITHO veio justamente para tentar resolver essa zona cinzenta.
A lacuna aqui é conhecida: anticoagular e observar pode ser pouco para alguns pacientes que deterioram rapidamente, mas trombólise sistêmica carrega um custo hemorrágico alto demais para ser usada de forma indiscriminada. Nos últimos anos, surgiu como alternativa a fibrinólise dirigida por cateter, potencializada por ultrassom, mais local, teoricamente mais segura.
A estratégia invasiva reduziu significativamente o desfecho composto, principalmente por diminuir episódios de descompensação cardiopulmonar, sem aumento relevante de sangramento maior.
Não é ainda uma resposta definitiva para todos, mas muda o tom da conversa:
👉 talvez, para o paciente certo, agir antes da deterioração seja melhor do que reagir a ela.
E então veio o terceiro ato, talvez o mais provocador do ponto de vista de mudança de paradigma. O CHAMPION-AF trouxe de volta uma pergunta antiga, mas agora com dados robustos: será que precisamos mesmo anticoagular todos os pacientes com fibrilação atrial?
A anticoagulação com NOACs é altamente eficaz, mas não é perfeita, especialmente quando olhamos para o risco cumulativo de sangramento ao longo dos anos. Em paralelo, dispositivos de oclusão do apêndice atrial esquerdo evoluíram, tornando-se mais seguros e mais previsíveis.
O estudo testou diretamente essa hipótese: dispositivo versus medicação, frente a frente , algo que até então não havia sido feito nesse perfil de pacientes elegíveis para anticoagulação.
O resultado? Não inferioridade para eventos tromboembólicos e morte cardiovascular, com um bônus importante: menos sangramento ao longo do tempo no grupo do dispositivo.
Mas nem tudo é tão simples: houve uma leve tendência a mais AVC isquêmico no grupo intervenção, aquele detalhe que impede conclusões apressadas e clama por um seguimento mais prolongado.
Ainda assim, a mensagem é forte:
👉 oclusão do apêndice não é mais apenas plano B, é uma alternativa cada vez mais real dentro de uma decisão compartilhada.
E se você achou que o ritmo cairia à tarde… achou errado.
Porque a segunda metade do dia veio com um trio mais silencioso, porém extremamente prático:
o GoFreshRx, carinhosamente conhecido como Ifood da HAS, mostrou que algo tão “básico” quanto garantir acesso a uma dieta DASH, com entrega domiciliar e suporte nutricional, consegue reduzir pressão arterial de forma significativa em uma população historicamente negligenciada;
o VESALIUS-CV puxou a régua da prevenção primária para mais alto ao demonstrar que o evolocumabe reduz eventos mesmo em pacientes de alto risco sem evento prévio, reforçando que talvez estejamos subtratando quem ainda não infartou;
e o EZ-PAVE fechou o dia com um recado direto ao consultório: mirar LDL mais baixo (na casa de ~50 mg/dL) não é exagerado nem aqui e nem na Coreia, é estratégia que reduz evento, consolidando de vez a ideia de que, em aterosclerose estabelecida, quanto mais baixo, melhor.
Dia 2 (29/03)
Se no primeiro dia o ACC abriu com jazz… no segundo já estávamos no meio da Bourbon Street: mais intenso, mais barulhento e com aquele mix de técnica refinada e improviso que só New Orleans sabe fazer.
E não por acaso, o palco principal foi da cardiologia intervencionista, na qual cada decisão é quase um solo ao vivo: timing, precisão e, às vezes, coragem para sair do script.
VAI BRASA! (rs). O grande momento do dia veio na cor canary e com sotaque bem brasileiro. O SurViV trial, 100% nacional e comandado pelo Dr Dimytri Siqueira do Instituto Dante Pazzanese (SP), trouxe uma pergunta difícil e extremamente prática: o que fazer diante da disfunção de prótese mitral biológica? Reoperar ou ir de valve-in-valve?
O estudo colocou frente a frente a abordagem percutânea (ViV mitral) e a cirurgia convencional, com um desfecho duro (morte ou AVC incapacitante). E o resultado foi daqueles que fazem a plateia levantar a sobrancelha: 5,3% vs 20,8% em 12 meses, uma redução de quase 4 vezes.
Destacamos que o estudo não apresentou idade mínima para randomização e engloba pacientes jovens acometidos com febre reumática. Não só isso, uma população de alto risco e com histórico de múltiplas reabordagens. Que impacto científico de peso!
Seguindo no território estrutural, o PRO-TAVI trouxe uma discussão que todo hemodinamicista já teve no corredor: tratar coronária antes da TAVI ou não?
A resposta foi elegante e pragmática: estratégia conservadora foi não inferior à angioplastia rotineira.
Tradução direta para o mundo real: nem toda lesão precisa ser “resolvida” antes da válvula. Seleção continua sendo tudo.
Ainda no universo TAVI, o ProtectH2H colocou dois dispositivos de proteção cerebral frente a frente. O Emboliner capturou três vezes mais debris do que o já consagrado Sentinel.
Bonito no papel, impressionante no dispositivo… mas sem tradução em desfecho clínico.
Ou seja: seguimos protegendo melhor o filtro do que o paciente — por enquanto.
E falando em intervenções que estão amadurecendo, o Tri.fr reforçou o papel do T-TEER na insuficiência tricúspide: menos hospitalização por insuficiência cardíaca (redução de 40%) e melhora de qualidade de vida.
A tricúspide, que por muito tempo foi negligenciada, definitivamente entrou na era percutânea.
Na coronária, o recado foi claro: a tecnologia está mudando o jogo. Os estudos ALL-RISE e FAST III mostraram que o FFRangio (derivado de imagem, sem fio e sem adenosina) foi não inferior ao FFR tradicional.
Menos tempo, menos manipulação, menos desconforto. A sensação? Estamos cada vez mais próximos de uma avaliação funcional sem fio, sem hiperemia e sem desculpa para não fazer.
E já que estamos falando de coronária complexa… o ORBITA-CTO trouxe de volta aquele velho debate com um tempero especial (sim, placebo novamente). E, dessa vez, a recanalização de CTO mostrou melhora real de angina precoce em relação ao placebo.
Um ponto importante: para o paciente sintomático, talvez o esforço da recanalização faça sentido sim.
Nem tudo foram flores. O CHIP-BCIS3 jogou um balde de água fria no uso rotineiro de suporte ventricular em angioplastias de alto risco: a bomba axial não só não ajudou… como veio acompanhada de mais eventos adversos. Aquela sensação clássica: tecnologia boa, indicação nem sempre.
E nos estudos clínicos, o dia trouxe sinais interessantes — e alguns alertas.
O SCOUT-HCM abriu uma nova janela ao mostrar que o mavacamten reduz significativamente o gradiente em adolescentes com miocardiopatia hipertrófica.
Pequeno, sim. Mas com um impacto potencial enorme para uma população que até então tinha poucas opções.
O CADENCE trouxe uma luz (ainda tímida, mas real) para um cenário difícil: hipertensão pulmonar combinada na IC com fração de ejeção preservada. O sotatercept reduziu resistência vascular pulmonar, algo que há pouco tempo parecia quase inalcançável nesse grupo.
E para fechar, um lembrete importante, e um pouco indigesto: o SPIRIT-HF reforçou que insuficiência cardíaca não é tudo igual. Espironolactona não trouxe benefício na IC com fração preservada ou levemente reduzida… e ainda levantou preocupação com segurança (hipercalemia e piora renal).
Dia 3 (30/03)
Último dia de ACC… Mas não desacelera a batida!
E o dia começou lembrando que nem sempre inovação vem em forma de stent ou dispositivo, às vezes vem em forma de comida (!).
O THRIVE trial trouxe o conceito de “food is medicine” com dados reais: um programa estruturado, culturalmente adaptado, com entrega de alimentos e incentivo à dieta DASH em populações vulneráveis conseguiu reduzir pressão arterial de forma consistente (queda de ~6–7 mmHg, chegando a mais de 13 mmHg entre os mais aderentes), com alta aceitabilidade.
Mais do que um estudo de HAS, é quase um estudo sobre acesso, e um lembrete de que guideline nenhum funciona sem contexto.
Saindo da nutrição e entrando no território clássico da cardiologia, o SMART-DECISION seguiu a saga dos beta-bloqueadores e questionou: dá para pará-los depois do infarto?
Em pacientes estáveis, sem disfunção ventricular e após pelo menos 1 ano de uso, a descontinuação foi não inferior à manutenção para desfechos duros (morte, reinfarto e IC).
Em outras palavras: talvez estejamos mantendo medicações mais por hábito do que por evidência em alguns pacientes.
E então veio um estudo que conversa diretamente com a realidade de boa parte do mundo: o DIG-RHD. Em pacientes com cardiopatia reumática sintomática, a digoxina reduziu em cerca de 18% o desfecho combinado de morte ou piora de insuficiência cardíaca, puxado principalmente pela redução de descompensações .
Um clássico que ganha respaldo moderno e talvez um novo fôlego em cenários onde opções terapêuticas são limitadas.
Na fronteira da aterosclerose, o ESSENCE-CTA trouxe um banho de água fria elegante: apesar de reduzir de forma robusta triglicerídeos (≈64%) e colesterol remanescente, o olezarsen não conseguiu reduzir volume de placa não calcificada na angiotomografia em 12 meses.
A mensagem aqui é fina, mas importante: mexer em biomarcador não significa necessariamente mexer em doença, pelo menos não no tempo que a gente gostaria.
E calma que ainda não acabou!
Ainda hoje teremos mais lenha na fogueira com estudos que prometem esquentar (ainda mais) a hemodinâmica:
IVUS-CHIP – avaliou se a estratégia guiada por IVUS é superior à guiada por angiografia em ICPs complexas de alto risco na redução de falha do vaso-alvo.
DKCRUSH-VIII – avaliou se o double kissing guiado por IVUS reduz falha do vaso-alvo em 12 meses em comparação ao guiado apenas por angiografia.
OPTIMAL – randomizou pacientes com lesões de novo em tronco de coronária esquerda não protegido ou ostiais (LAD/LCx/ramo intermediário) para ICP guiada por IVUS vs angiografia.
SirPAD – avaliou o papel dos balões revestidos com sirolimus em casos de doença arterial periférica infrainguinal.
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