O que você verá nesta edição
📚 Três novas diretrizes da SBC: mudanças no tratamento da insuficiência cardíaca, nas intervenções valvares e no cuidado cardiovascular da pessoa idosa.
🚨 PREVENT: a composição lipídica da placa pode ajudar a identificar quem mais se beneficia da intervenção coronária preventiva.
💊 Estatinas e efeitos adversos: o que uma metanálise encontrou entre 66 possíveis efeitos descritos em bula.
📖 Fique por dentro: novidades sobre terapia de ressincronização, sarcoidose cardíaca, pressão arterial na doença renal crônica… e muito mais!
As novas diretrizes da SBC
por Maria Júlia Souto
Feliz Dia das Crianças, meus caros Dozers! Nada faz a gente se sentir mais criança do que ganhar um presente novo (obrigada pelos mimos, SBC!).
Foram publicadas três diretrizes sobre temas há muito esperados, apresentadas durante o Congresso Brasileiro de Cardiologia, no último final de semana.
Mais uma vez: já agradeceu a existência da DozeNews hoje?
Sim! Trouxemos as principais novidades de cada uma delas. E, como já é de praxe, teremos os resumos completos nas próximas edições da DozePrime.
🫀 Diretriz de Insuficiência Cardíaca 2026
“Ah, mas é a diretriz da ESC 2026 em português!”
Tenho certeza de que você ouviu alguém comentando isso por aí após a publicação da diretriz. O que poderia soar como uma crítica, eu considero um baita elogio.
Quem já participou da elaboração de uma diretriz (eu não, mas já ouvi relatos, o que dá no mesmo rs) sabe que o processo é longo e que boa parte dos textos é entregue muito antes da publicação. Uma diretriz brasileira tão alinhada às evidências internacionais, publicada pouco mais de um mês depois da europeia, mostra o trabalho cuidadoso dos nossos autores. Respect!
Ok, sem mais delongas: vamos às principais novidades.
1. Como as recomendações são graduadas
A diretriz adota o sistema GRADE, que apresenta separadamente a força da recomendação (forte ou fraca) e a certeza da evidência, substituindo o formato tradicional de classes I, IIa, IIb e III, acompanhadas dos níveis de evidência A, B ou C.
A mudança ajuda a distinguir duas coisas: o quanto se recomenda uma conduta e quão seguros estamos sobre as evidências que a sustentam. Assim, uma recomendação forte não significa necessariamente que a certeza da evidência seja alta.
2. Uma nova forma de classificar a fração de ejeção
A classificação apresentada define ICFEr como FEVE <50% e ICFEp como FEVE ≥50%, sem manter uma categoria separada para a faixa levemente reduzida.
Essa mudança merece atenção: ao analisar cada recomendação, ainda é preciso conferir qual limite de FEVE foi usado para embasar a evidência.
3. Na ICFEr, o foco também é começar cedo
A diretriz organiza o manejo em terapia medicamentosa fundamental, terapias adicionais e intervenções, reforçando a importância de introduzir e otimizar o tratamento sem atrasos desnecessários.
O “quarteto fantástico” segue como base do tratamento: bloqueio do sistema renina-angiotensina (dessa vez o sacubitril-valsartana entra como possibilidade já no início do tratamento), betabloqueador, antagonista mineralocorticoide e iSGLT2.
Os iSGLT2 são recomendados para pacientes sintomáticos independentemente da presença de diabetes. A diretriz também destaca seu início após estabilização clínica durante a internação.
Para o sacubitril-valsartana, recomenda a substituição do IECA ou BRA em pacientes que permanecem sintomáticos apesar do tratamento otimizado; já o início como primeira terapia de bloqueio neuro-hormonal em casos recém-diagnosticados tem recomendação mais cautelosa, com evidência de menor certeza.
4. Na ICFEp, há mais opções com evidência
Os iSGLT2 são recomendados para reduzir morte cardiovascular ou piora da IC. A diretriz também inclui antagonistas mineralocorticoides (espironolactona ou finerenona) para reduzir hospitalizações e eventos de piora da IC.
Outra novidade é o tratamento da obesidade: a tirzepatida, agonista duplo de GIP/GLP-1, é recomendada para reduzir peso e eventos de piora da IC ou morte cardiovascular (estudo SUMMIT).
Para a semaglutida, a recomendação destaca perda de peso, melhora da qualidade de vida e da capacidade funcional; a evidência para redução de eventos é menos robusta (estudo STEP-HEpEF).
5. Descongestão com monitoramento mais detalhado
O manejo da IC aguda ganha orientações sobre estratégias diuréticas e avaliação da resposta à descongestão, incluindo o uso de ultrassom à beira-leito. A diretriz também dedica espaço à síndrome cardiorrenal e à interpretação da função renal durante o tratamento.
🩺 Diretriz de Valvopatias 2026
Se havia grande expectativa pela nova diretriz de IC, cuja última diretriz completa era de 2018, com uma atualização focada em 2021, o que dizer do guideline de valvopatias?
Seis anos (!) após a última atualização, a abordagem mudou bastante: a TAVI se consolidou, avançaram as opções transcateter para as valvas mitral e tricúspide, e a intervenção mais precoce na estenose aórtica passou a ser considerada em pacientes assintomáticos selecionados.
Dito isso, vamos às principais novidades:
1. Intervenção precoce na estenose aórtica
A intervenção pode ser considerada em pacientes com estenose aórtica importante de alto gradiente, assintomáticos, sem complicadores e com baixo risco cirúrgico. A recomendação é fraca, apesar da alta certeza da evidência.
Ainda não há benefício consistente em mortalidade. Realce tardio na RMC, strain reduzido, peptídeos natriuréticos elevados ou alto escore de cálcio podem ajudar a selecionar pacientes, após discussão pelo Heart Team.
2. Cirurgia ou TAVI? A idade ajuda a orientar a escolha
Em pacientes de baixo risco com estenose aórtica importante sintomática ou com complicadores, a diretriz prefere cirurgia abaixo dos 70 anos; entre 70 e 80 anos, considera TAVI e cirurgia opções equivalentes; acima dos 80, prefere TAVI.
A TAVI já era considerada em pacientes selecionados na diretriz de 2020, mas havia maior cautela abaixo dos 70 anos, especialmente pela preocupação com a durabilidade das próteses. Agora, a escolha por faixa etária fica mais explícita.
3. TAVI também pode ser considerada na insuficiência aórtica
A diretriz inclui essa opção para pacientes sintomáticos com insuficiência aórtica importante, contraindicação ou risco proibitivo à cirurgia, anatomia favorável e expectativa de vida superior a um ano, após avaliação pelo Heart Team.
A recomendação é fraca e a certeza da evidência, baixa. Em 2020, o texto apontava que essa indicação ainda precisava ser validada.
4. Mais opções transcateter para as valvas mitral e tricúspide
Para insuficiência mitral primária sintomática, o reparo percutâneo borda a borda é recomendado em pacientes com alto risco cirúrgico e anatomia favorável. Na insuficiência mitral secundária ventricular, pode ser indicado quando os sintomas persistem apesar do tratamento medicamentoso otimizado.
Para insuficiência tricúspide importante refratária ao tratamento clínico, a diretriz considera opções transcateter em pacientes de alto risco ou inoperáveis, conforme a anatomia e a decisão do Heart Team.
5. Valve-in-valve e profilaxia de endocardite
Em pacientes sintomáticos com disfunção importante de bioprótese aórtica ou mitral e alto risco cirúrgico, ou considerados inoperáveis, a estratégia valve-in-valve recebe recomendação forte, com alta certeza da evidência.
A profilaxia odontológica também ganha força: é recomendada para pacientes com alto risco de endocardite submetidos a extrações, cirurgia oral ou procedimentos com manipulação gengival ou periapical.
🧓🏻 Diretriz de Cardiogeriatria
Agora vamos falar de algo inédito, e que clamávamos há anos: uma diretriz brasileira dedicada à Cardiogeriatria.
É um documento bastante completo (são muitas páginas rs) que percorre diferentes áreas da Cardiologia sob a perspectiva do envelhecimento. Para esta primeira passada, separamos algumas mensagens que atravessam os capítulos e ajudam a repensar o cuidado:
Como nas outras diretrizes, as recomendações usam o sistema GRADE, que separa a força da recomendação da certeza da evidência.
1. Idade não é documento
A diretriz reforça que a idade cronológica, sozinha, não deve definir o risco nem limitar o tratamento. Fragilidade, funcionalidade, cognição, comorbidades, estado nutricional e preferências também entram na avaliação.
A Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) organiza essa investigação e ajuda a identificar vulnerabilidades que podem passar despercebidas na consulta convencional.
2. Fragilidade deve ser rastreada
Recomenda-se avaliar fragilidade em pessoas com doença cardiovascular a partir dos 70 anos e também em pacientes com 65 anos ou mais que apresentem condições clínicas ou vulnerabilidades específicas.
Um rastreio positivo deve levar a uma avaliação mais completa. A diretriz não propõe uma ferramenta única para todos: a escolha depende do perfil do paciente e do contexto clínico.
3. Revisar medicamentos também faz parte do tratamento
Polifarmácia não significa, automaticamente, prescrição inadequada. O ponto é revisar periodicamente indicação, dose, interações, segurança e alinhamento dos medicamentos com os objetivos de cuidado.
Quando os riscos superam os benefícios, a desprescrição pode ser considerada de forma planejada, gradual e acompanhada, em parceria com o paciente.
4. Infarto pode aparecer sem a dor “clássica”
Em idosos, uma síndrome coronariana aguda pode se manifestar com falta de ar súbita, síncope ou confusão, mesmo sem dor torácica típica. A diretriz recomenda manter a suspeita clínica diante desses sinais.
Na estratificação de risco, escores como o GRACE podem ser complementados pela avaliação de fragilidade, cognição e funcionalidade.
5. Decisões sobre procedimentos precisam considerar o que importa para o paciente
A idade, isoladamente, não deve excluir uma cirurgia ou intervenção. A decisão deve ponderar riscos, expectativa de vida, possibilidade de recuperação funcional, controle de sintomas e preferências do paciente.
Em alguns casos, essa avaliação pode favorecer uma intervenção; em outros, pode apontar para uma estratégia mais conservadora. O objetivo é escolher um cuidado proporcional e alinhado às metas da pessoa idosa.
Prevenir é preciso?
por Marcos Meniconi
Você conhece o PREVENT trial? Se não conhece, vale a pena ficar por aqui…
O PREVENT avaliou o tratamento de lesões coronárias não limitadoras de fluxo (FFR negativo) mas com características morfológicas de alto risco avaliados tanto por imagem intracoronária quanto com análise do core lipídico com NIRS (Near-Infrared Spectroscopy).
O tratamento profilático foi benéfico em relação ao tratamento clínico otimizado.
Mas ficou a dúvida: diante de tantos fatores de imagem avaliados, quais são realmente discriminadores de eventos futuros?
Uma análise post hoc, publicada no Circulation, incluiu 598 pacientes, com 632 lesões que tinham FFR >0,80, carga de placa >70% e área luminal mínima <4 mm² no IVUS. A espectroscopia por infravermelho próximo (NIRS) identificou placas ricas em lipídios quando o maxLCBI em 4 mm era >315.
A composição acrescentou informação à anatomia. Placas ricas em lipídios estavam presentes em 37,3% dos pacientes. Ao longo de 5,6 anos, o desfecho composto ocorreu em 12,5% deles, contra 4,7% dos pacientes sem esse achado.
O resultado mais chamativo veio da comparação entre tratamentos.
Nos pacientes com placa rica em lipídios, a ICP preventiva se associou a menos eventos do que o tratamento clínico otimizado (7,3% vs. 17,6%; HR ajustada 0,23).
Entre aqueles sem placa rica em lipídios, não houve benefício aparente (5,5% vs. 4,2%; HR ajustada 1,00). A interação entre presença de lipídios e estratégia de tratamento foi significativa (p<0,001).
A mensagem é que carga de placa alta e lúmen pequeno, isoladamente, podem não discriminar quem mais se beneficia da ICP preventiva. A composição lipídica detectada pela NIRS pode ajudar nessa seleção. Mas, por ser uma análise post hoc, o achado ainda precisa de confirmação prospectiva antes de definir uma estratégia de rotina.
Estatinas no banco dos réus: quantas acusações se sustentam?
por Diandro Mota
Imagine a cena: um paciente de 58 anos, hipertenso e com colesterol elevado, recebe a recomendação de iniciar uma estatina. Antes de sair do consultório, pergunta:
“Doutor, mas essa medicação não causa perda de memória, depressão, problemas no fígado e até impotência?”
A preocupação é compreensível. Basta abrir a bula para encontrar uma longa lista de possíveis efeitos adversos. Mas há uma diferença importante entre um problema que aparece durante o tratamento e outro que é causado por ele.
Foi essa dúvida que motivou uma metanálise da Cholesterol Treatment Trialists’ Collaboration (CTT), publicada no The Lancet. Os pesquisadores reuniram dados individuais de 154.664 participantes de 23 ensaios randomizados e duplo-cegos. Nos 19 estudos que compararam estatina com placebo ou controle, quase 124 mil pessoas foram acompanhadas por uma mediana de 4,7 anos. A equipe avaliou 66 possíveis efeitos adversos descritos nas bulas.
O que a análise encontrou?
Após correção para múltiplas comparações, 62 dos 66 efeitos não apresentaram aumento estatisticamente significativo com estatinas.
Entre eles estavam comprometimento cognitivo, demência, depressão, distúrbios do sono, disfunção sexual, neuropatia periférica e lesão renal aguda.
Isso não torna impossível que alguém desenvolva essas condições durante o tratamento. A análise indica que, nos ensaios avaliados, não houve evidência consistente de que as estatinas aumentassem sua frequência.
Quatro desfechos tiveram aumento: alterações das transaminases, outras alterações nos testes de função hepática, mudanças na composição urinária e edema. O excesso absoluto foi pequeno.
Para as alterações hepáticas laboratoriais combinadas, foram cerca de 13 casos adicionais por 10 mil pessoas tratadas por ano. O sinal foi mais forte com esquemas intensivos, especialmente atorvastatina 80 mg, sem aumento correspondente de complicações hepáticas clínicas graves nos dados analisados. As diferenças para alterações urinárias e edema também foram pequenas.
E as dores musculares e o diabetes?
Esses riscos não foram descartados: já haviam sido avaliados em análises anteriores da CTT. As estatinas podem causar um pequeno excesso de sintomas musculares, sobretudo no primeiro ano, e aumentar discretamente a incidência de diabetes, principalmente em pessoas com predisposição metabólica e com tratamentos mais intensivos.
A mensagem, portanto, não é que estatinas sejam isentas de efeitos adversos. É que precisamos dimensionar os riscos e conversar sobre eles com precisão.
O perigo de um efeito colateral que não está na bula
A reflexão mais importante do artigo seja sobre as consequências da desinformação.
Os autores relembram que, após uma ampla repercussão de notícias alarmistas sobre estatinas no Reino Unido, mais de 200 mil pacientes teriam interrompido o tratamento em aproximadamente seis meses, segundo estimativas observacionais.
Essa interrupção poderia ter contribuído para milhares de eventos cardiovasculares evitáveis nos anos seguintes.
E aqui entra uma comparação fundamental: tratar 10 mil pessoas durante cinco anos com um regime eficaz de estatina pode prevenir aproximadamente 1.000 eventos cardiovasculares maiores em pacientes com doença vascular estabelecida e 500 eventos entre indivíduos com risco aumentado em prevenção primária.
Naturalmente, esses benefícios dependem do risco cardiovascular individual.
Mas os números ajudam a compreender algo essencial: superestimar um possível efeito adverso também pode produzir consequências graves para a saúde.
O que muda na prática?
Sintomas relatados durante o uso merecem escuta e investigação; a sequência temporal, sozinha, não confirma causalidade. Também vale explicar os riscos em números absolutos, revisar a necessidade de exames e discutir a decisão de forma individualizada.
A análise não exclui eventos muito raros nem resolve todas as dúvidas sobre exposições mais longas. Ainda assim, oferece uma base robusta para revisar a forma como alguns riscos são apresentados nas bulas, e para evitar que a lista de possíveis efeitos adversos fale mais alto que a evidência.
Fique por dentro
⚡️ TRC com ou sem desfibrilador? A ausência de fibrose na ressonância pode ajudar a decidir. Metanálise com pacientes com cardiomiopatia não isquêmica mostrou que a ausência de realce tardio esteve associada a maior resposta à terapia de ressincronização (79% vs. 51%) e risco muito menor de arritmias ventriculares (0,8% vs. 21%).
👀 Sarcoidose cardíaca: a importância da multimodalidade. Revisão do JACC: Cardiovascular Imaging destaca o papel crescente da ressonância cardíaca e do PET no diagnóstico, estratificação de risco e monitoramento da doença, permitindo identificar inflamação e fibrose miocárdica.
💧 Controle intensivo da pressão arterial na doença renal crônica: o coração agradece, mas e os rins? Metanálise publicada no JAMA com quase 89 mil pacientes mostrou redução de 15% nos eventos cardiovasculares a cada 10 mmHg de queda da pressão sistólica, com benefício absoluto ainda maior nos pacientes com doença renal crônica.
🇨🇳 Padrão de terceiro mundo? Estudo chinês demonstra baixos índices de sobrevida no tratamento de pacientes com parada cardiorrespiratória intra hospitalar. O que se pode melhorar é um dos assuntos que aplica-se à realidade brasileira.
☀️ Aquecimento global em pauta! Pacientes com DCV podem passar mal no calor excessivo. A ESC publicou um documento orientando o cuidado dos cardiopatas com risco de exposição ao fervo!
🤨 Marcapasso bicameral ou feixe de His? Estudo demonstra segurança e resultados similares da estimulação pelo sistema de condução, o famoso His.
💩 Foco no Enterococcus faecalis! The Lancet publica revisão sistemática e metanálise sobre endocardite pelo enterococo.







