É a vez do Ômega 3
Finalmente poderemos adicionar esse suplemento no nosso arsenal de prevenção cardiovascular?
Você verá nesta edição:
🐟 PISCES Trial: ômega-3 reduz eventos cardiovasculares em pacientes em hemodiálise?
❌ OPTION-STEMI: revascularização completa no IAMcSST pode ser prejudicial em pacientes com IC.
👴🏼 Escala de fragilidade prediz mortalidade em IC.
🍉 As polêmicas das novas diretrizes alimentares americanas.Encontramos o lugar do Ômega 3?
por Diandro Mota
“Em pacientes em hemodiálise, a suplementação diária com óleo de peixe (EPA+DHA) reduziu em 43% a taxa de eventos cardiovasculares graves em comparação ao placebo (hazard ratio 0,57) ao longo de 3,5 anos de seguimento”.
Chocante, não é?! O New England Journal of Medicine publicou um estudo que, à primeira vista, chama atenção pelo tamanho do efeito e pela robustez metodológica.
Mas, como todo bom trabalho científico, ele merece ser lido com entusiasmo e espírito crítico.
Estamos falando do PISCES Trial, um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, placebo-controlado, que avaliou o impacto da suplementação com ômega-3 em pacientes em hemodiálise (uma população de altíssimo risco cardiovascular e historicamente pouco representada em grandes trials).
O que os autores fizeram?
1.228 pacientes em hemodiálise, recrutados em 26 centros no Canadá e Austrália.
Randomização 1:1 para:
Ômega-3: 4 g/dia (1,6 g EPA + 0,8 g DHA)
Placebo: óleo de milho
Seguimento médio: 3,5 anos;
Desfecho primário: eventos cardiovasculares graves recorrentes, incluindo morte cardíaca, IAM, AVC e amputação por doença vascular periférica.
Você já viu que o resultado foi bem favorável ao ômega 3, mas que tal entendermos um pouco melhor o estudo e suas nuances antes de mudarmos a dieta das clínicas de diálise para peixe?
✅ Pontos fortes do estudo:
1. População certa para a pergunta certa.
Pacientes em hemodiálise têm risco cardiovascular extremo, inflamação crônica, instabilidade eletrolítica e níveis basais baixos de ômega-3. Se houvesse um cenário biologicamente plausível para benefício, seria este (e os autores escolheram bem o alvo).
2. Tamanho do efeito clinicamente relevante.
A redução de 43% nos eventos cardiovasculares graves (HR 0,57) é expressiva, consistente e difícil de ignorar. Não estamos falando de desfechos substitutos, mas de morte, infarto, AVC e amputação.
3. Coerência interna dos resultados.
Todos os componentes do desfecho composto apontam na mesma direção, além de redução em eventos recorrentes (algo particularmente relevante em pacientes que frequentemente acumulam múltiplos eventos ao longo do tempo).
4. Segurança tranquilizadora.
Apesar do receio clássico de sangramento com ômega-3, não houve aumento de eventos hemorrágicos. Pelo contrário, numericamente eles foram até menores no grupo intervenção.
⚠️ Pontos sensíveis e limitações
1. Generalização limitada.
Os resultados não podem ser automaticamente extrapolados para:
pacientes com DRC não dialítica;
pacientes em diálise peritoneal;
ou população geral de alto risco cardiovascular.
Este é um estudo muito específico (e isso é virtude e limitação ao mesmo tempo).
2. Uso subótimo de terapias padrão.
Menos de 60% dos pacientes usavam estatinas, e menos de 10% outras terapias hipolipemiantes. Isso levanta a pergunta inevitável: o benefício observado é incremental ou, em parte, compensatório de um tratamento cardiovascular global aquém do ideal?
3. Desfecho composto complexo.
Embora clinicamente relevante, o desfecho primário inclui eventos de naturezas distintas, e nem todos com o mesmo peso prognóstico. Ainda que os componentes individuais também tenham apontado benefício, a interpretação do “pacote completo” exige cautela.
4. Placebo não totalmente neutro.
O óleo de milho contém ácido linoleico e vitamina E, com possíveis efeitos anti-inflamatórios. Embora improvável que tenha aumentado risco cardiovascular, ele não é um placebo absolutamente inerte, um detalhe metodológico que merece menção.
5. Mecanismo ainda inferido, não comprovado.
As hipóteses anti-inflamatória, antiarrítmica e antitrombótica são biologicamente plausíveis, mas o estudo não foi desenhado para provar mecanismo. Seguimos no território da inferência.
Então… como interpretar?
Este estudo não encerra o debate sobre ômega-3, mas redefine o contexto da discussão.
Ele sugere que o ômega-3 não é uma solução universal, mas pode ser uma intervenção altamente eficaz em uma população muito específica, com deficiência real e risco extremo.
Revascularização completa no IAMcSST é sempre a resposta?
por Marcos Meniconi
Não é só de dorama e cirurgia plástica que vivem os coreanos. A terra da Samsung também entrega ciência de alto nível. E, na cardiologia intervencionista, isso ficou claro no OPTION-STEMI, publicado no European Heart Journal.
Assinado por Kim (sim, parece piada… mas não é 😅), o estudo enfrenta uma pergunta que todo hemodinamicista já se fez no plantão:
Em pacientes com IAM com supra e doença multiarterial, o momento da revascularização completa muda o prognóstico quando há insuficiência cardíaca?
À primeira vista pode parecer mais do mesmo, mas não é. Nenhum estudo elucidou de maneira clara qual perfil do paciente pode se beneficiar do tratamento de todas as lesões no procedimento índex (e se há benefício ou malefício relacionada a este manejo mais agressivo).
Vamos aos dados:
Foi ensaio clínico randomizado que incluiu 994 pacientes com IAMcSST e DAC multiarterial randomizados para revascularização completa imediata vs estratégia estagiada ainda na internação.
O desfecho primário foi composto por morte por todas as causas, IAM não fatal e revascularização não planejada em 1 ano.
O grande detalhe do estudo foi a análise secundária de subgrupos que avaliou o impacto nos desfechos de pacientes com IC à admissão (Killip II e III).
33% dos pacientes tinham IC na admissão, e foi esse o grupo que apresentou pior prognóstico global (18,2% vs 8,7%).
Nesses pacientes, a revascularização completa no procedimento índice foi pior que a estratégia estagiada: 22,8% vs 13,3% em 1 ano (HR 1,79).
Já naqueles sem IC, não houve diferença entre as estratégias (8,0% vs 9,5%).
Este é o primeiro estudo a mostrar de forma consistente que, no subgrupo com insuficiência cardíaca, fazer tudo de uma vez pode custar caro.
Não é apenas uma questão de anatomia. É fisiologia, carga de contraste, agressão adicional a um miocárdio já vulnerável.
⚠️ Importante: pelo desenho do estudo, não dá para bater o martelo nem mudar diretriz amanhã. Mas dá, sim, para pensar duas vezes antes de “resolver tudo” no paciente com Killip II–III.
Fragilidade não é apenas um detalhe
por Maria Júlia Souto
Fragilidade na insuficiência cardíaca é fator prognóstico.
E agora temos dados robustos para comprovar isso.
Usando o grande registro japonês JROADHF-NEXT, que avaliou quase 4.000 pacientes hospitalizados por insuficiência cardíaca, foi possível demonstrar que uma ferramenta simples, aplicada à beira do leito, consegue adicionar relevante valor prognóstico.
A Clinical Frailty Scale, um escore visual de 1 a 9, permitiu a classificação dos pacientes em 6 categorias (1-2, 3, 4, 5, 6, and 7-9), que foram comparadas com testes formais de função física (força de preensão, velocidade de marcha, Short Physical Performance Battery, teste de caminhada de 6 minutos) e cognição (Mini-Cog).

Dos quase 4000 pacientes, mais de 60% dos pacientes foram considerados frágeis ou pré-frágeis na alta, e notou-se que quanto maior o escore de fragilidade, pior a função física e cognitiva, de forma progressiva;
Em 2 anos, 18,6% morreram, com aumento em degraus da mortalidade conforme a fragilidade;
Pacientes com escores mais altos tiveram risco de morte até 6,5 vezes maior, mesmo após ajuste para risco clínico e BNP;
E o principal e mais surpreendente: a escala simples discriminou risco melhor do que baterias formais de testes funcionais.
A fragilidade não é só idade, nem “impressão subjetiva”. Ela integra reserva funcional, cognição e vulnerabilidade biológica, e antecipa desfechos duros.
Uma escala rápida, sem equipamento, aplicada em minutos, prediz mortalidade em insuficiência cardíaca e pode, finalmente, transformar fragilidade de um conceito abstrato em ferramenta prática de cuidado.
A pirâmide inverteu
Caiu na Mídia
"Pela primeira vez, estamos alertando sobre os perigos dos alimentos altamente processados e reconstruindo um sistema quebrado do zero, usando ciência de padrão ouro e bom senso."
Essa é a ideia central das recomendações presentes nas novas “Diretrizes Alimentares para Americanos 2025-2030” divulgadas na última semana.
E, como quase tudo hoje em dia, elas já chegaram cercadas de polêmicas.
O documento apresenta uma nova pirâmide alimentar (ou talvez triângulo equilátero invertido, mas vamos deixar a geometria de lado rs) com proteínas, laticínios, gorduras saudáveis, frutas e vegetais no topo, e grãos integrais na base. O recado é direto: menos carboidratos refinados, menos comida de pacote e mais comida de verdade.
É o “Make America Healthy Again”.
Mas onde começa a polêmica (além do slogan de gosto um tanto discutível rs)?
Uma das questões levantadas é em relação à recomendação do consumo de gorduras. O documento mantém a orientação de limitação do consumo de gordura saturada a até 10% das calorias diárias, com a ressalva de priorizar fontes de alimentos integrais, como carnes e laticínios.
Essa lógica difere, por exemplo, do Guia Alimentar para a População Brasileira, que desloca o foco da quantidade para o tipo de alimento, dando prioridade a gorduras de fontes vegetais e ao padrão alimentar como um todo.
Outra mudança importante foi a elevação da ingestão recomendada de proteínas, agora entre 1,2 e 1,6 g/kg/dia. A justificativa é sair do mínimo necessário para evitar deficiência e mirar saúde metabólica e preservação de massa muscular. Ainda assim, o debate segue aberto sobre a predominância de fontes animais versus vegetais.
O posicionamento sobre açúcar foi mais contundente: nenhuma quantidade de açúcar adicionado é considerada parte de uma dieta saudável, com limite prático de até 10 g por refeição. Já o álcool perdeu seus antigos números mágicos e passou a ser descrito de forma mais simples: quanto menos, melhor.
Nos bastidores, a polêmica também envolveu o processo de elaboração. As novas diretrizes rejeitaram grande parte das recomendações de um painel anterior e foram construídas por um grupo menor de especialistas, alguns com vínculos com a indústria alimentícia. O documento final, com apenas 10 páginas, cumpre a promessa de simplicidade, mas levanta dúvidas sobre excesso de simplificação em temas complexos.
No fim, apesar do ruído político, a mensagem é clara e difícil de contestar: menos açúcar, menos ultraprocessados e mais comida de verdade.
Vem aí! Aguarde que logo mais teremos um episódio essencial do DozeCast para discutir todas as nuances das novas recomendações 👀.
Fique por dentro
🐟 E por falar em ômega-3… Análise do UK Biobank mostrou que níveis elevados de ômega-3 plasmático se associam a menor risco de FA. Já o uso de suplemento de óleo de peixe, por si só, não aumentou nem reduziu o risco após ajuste por idade.
🧠 Demência vascular é comum, mas ainda negligenciada. Artigo no JACC destaca que controlar fatores cardiovasculares é a melhor forma de prevenir VCID. Tratamentos como donepezila têm benefício modesto, e biomarcadores podem abrir caminho para terapias mais precisas.
🔪 Revascularizar ou não? Eis a questão na disfunção ventricular isquêmica. Revisão no JACC questiona o uso rotineiro da revascularização em pacientes com iLVD e propõe abordagem mais seletiva. Novos ensaios com suporte circulatório mecânico prometem refinar a tomada de decisão.
💉 Evolocumabe também previne primeiro evento cardiovascular! No estudo VESALIUS-CV, apresentado no congresso da AHA 2025 e agora publicado oficialmente no NEJM, pacientes com aterosclerose ou diabetes, mas sem infarto ou AVC prévios, tiveram redução significativa de eventos com o uso de evolocumabe. Após 5 anos, o risco de MACE caiu 25%, sem aumento de efeitos adversos.
⚡️ Choque cardiogênico ainda mata muito, e rápido. Revisão publicada no NEJM reforça a urgência de refinar critérios de seleção e tempo ideal para uso de dispositivos, além de buscar novas estratégias terapêuticas.
🏃🏽♀️ É o tempo, não a intensidade, que molda o coração do atleta! Estudo com atletas monitorados por frequência cardíaca mostrou que a duração total do treino, especialmente em baixa intensidade, é o principal fator associado ao remodelamento cardíaco. Intensidade, por si só, teve pouco impacto.
🇧🇷 Autoria brasileira no The Lancet! Estudo do prof. dr. Alexandre Abizaid sobre angioplastia com stent e balões farmacológicos associados foi negativo em comparação com angioplastia regular no tratamento de diabéticos.
🗝️ Disfunção microvascular: peça-chave na IC com fração de ejeção preservada. Até 75% dos pacientes com HFpEF apresentam disfunção microvascular coronariana (CMD). Revisão destaca que a CMD agrava sintomas, aumenta hospitalizações e mortalidade, e pode ser alvo para terapias futuras mais eficazes.
📈 Lipoproteína(a) elevada é risco certo por 30 anos! Estudo com quase 28 mil mulheres saudáveis seguidas por até três décadas mostra que níveis acima de 120 mg/dL de Lp(a) aumentam o risco de infarto, AVC e morte cardiovascular. Os dados reforçam a necessidade de considerar o rastreio populacional.






