E se rastreássemos todo mundo?
Será que mudaríamos mesmo mortalidade?
Você verá nesta edição: 🫀 Qual é o limite do rastreio cardiovascular? O que 104 mil jovens nos ensinaram sobre morte súbita, ECG, falso-positivo e a difícil equação entre prevenção e excesso. ⚠️ O perigo vai além do IAM: rivaroxabana em baixa dose previne trombo no ventrículo esquerdo após infarto anterior? 🚀 Cardiologia no Admirável Mundo Novo: temos as melhores drogas da história… então por que a mortalidade estagnou? 🤖 O CFM na era da IA: a inteligência artificial entrou oficialmente na medicina brasileira.
Qual é o limite do rastreio cardiovascular?
por Maria Júlia Souto
Todo mundo conhece aquele médico que diz:
“Eu faço assim no meu consultório. Peço vários exames. Na minha experiência isso funciona e tenho certeza que já salvei algumas vidas”.
No eterno embate entre experiência e evidência, a exceção vira regra, e os vieses fazem a festa: viés de disponibilidade, viés de confirmação, superestimação de benefício, subestimação de dano.
Não se trata de desprezar a vivência clínica ou a individualização do cuidado, pelo contrário. Mas quando falamos em “protocolos”, especialmente em rastreio cardiovascular, não dá para construir estratégia populacional em cima de uma história heroica isolada. A ciência é essencial.
E é exatamente por isso que este estudo publicado no JACC é tão provocador.
Aqui estamos falando de 104.369 jovens entre 14 e 35 anos submetidos a um rastreio cardiovascular padrão com questionário, eletrocardiograma (ECG) e ecocardiograma seletivo, seguidos por uma média de 6 anos.
Diferentemente de outros estudos de rastreio que envolvem essa faixa etária, não foram incluídos apenas atletas de elite. Aqui foi vida real, pacientes comuns do nosso consultório.
O que o rastreamento encontrou?
Condições associadas à morte súbita em 0,3% dos indivíduos.
Parece pouco? Talvez. Mas 41% desses receberam intervenções modificadoras de risco, incluindo cardiodesfibriladores implantáveis profiláticos e até transplante cardíaco.
Ou seja: não foi apenas “achar um diagnóstico interessante”. Houve impacto clínico concreto.
Mas a história não para aí. Entre aqueles liberados no rastreio inicial, 0,08% foram posteriormente diagnosticados com condição associada à morte súbita, e 0,03% evoluíram com parada cardíaca ou morte súbita durante o seguimento.
A incidência global de parada/morte súbita foi de 5,6 por 100.000 pessoas-ano, maior do que as estimativas prévias da população geral.
📝 Traduzindo: o rastreio detecta, mas não é bala de prata. Um único screening tem limitações claras, especialmente diante da penetrância tardia de miocardiopatias e canalopatias.
O ECG foi o protagonista diagnóstico, com sensibilidade de cerca de 75%, muito superior ao questionário (32%).
Ainda assim, o valor preditivo positivo foi baixo (como esperado quando a prevalência é pequena).
E é justamente aqui que a discussão fica interessante: estamos dispostos a lidar com falso-positivos, custo e ansiedade para capturar uma pequena fração de eventos potencialmente catastróficos?
Outro ponto que quebra narrativas simplistas: a incidência de parada/morte súbita foi semelhante entre atletas e não atletas. O risco não mora apenas no campo de futebol. Isso tem implicações éticas e políticas enormes. Se o problema não é exclusivo do atleta, por que restringir a estratégia apenas a ele?
E talvez a mensagem mais madura do estudo: rastrear uma vez não resolve. O intervalo médio entre o rastreio e o evento foi de cerca de 3,6 anos.
O estudo reforça a ideia de avaliações seriadas para mitigar o problema da penetrância relacionada à idade.
No fim das contas, este trabalho não é um panfleto pró ou contra rastreamento universal. É um banho de realidade baseado em números robustos.
Mostra que há ganho real, mas também há limite. Mostra que o ECG funciona, mas não é perfeito. Mostra que o risco não é exclusivo do atleta. E, acima de tudo, mostra que decisões em saúde pública não podem ser baseadas na história heroica de um único caso “salvo”, mas sim em dados de mais de cem mil jovens acompanhados ao longo do tempo.
É exatamente para isso que a ciência existe.
O perigo vai além do IAM
por Marcos Meniconi
Quanto mais estudamos síndrome coronariana aguda, mais percebemos que o problema do infarto não termina na sala de hemodinâmica.
A disfunção ventricular esquerda é apenas o começo. Arritmias ventriculares, insuficiência mitral por disfunção ou ruptura de músculo papilar, remodelamento adverso… e, no infarto anterior extenso, a velha preocupação com aneurisma e trombo no ventrículo esquerdo.
A pergunta é inevitável: podemos fazer algo além da revascularização para reduzir a formação de trombo no ventrículo esquerdo após IAM com supradesnivelamento do ST anterior?
Foi exatamente isso que os franceses tentaram responder no estudo APERITIF, publicado no JAMA Cardiology.
Trata-se de um ensaio clínico randomizado, multicêntrico (29 centros na França), aberto, com avaliação cega dos desfechos. Foram incluídos pacientes com IAM com supradesnivelamento do ST em parede anterior, após intervenção coronária percutânea.
A hipótese era simples e biologicamente plausível: adicionar rivaroxabana em baixa dose (2,5 mg duas vezes ao dia) à dupla antiagregação plaquetária por 4 semanas reduziria a incidência de trombo ventricular esquerdo.
Os pacientes foram randomizados para:
Rivaroxabana 2,5 mg 2x/dia + DAPT por 4 semanas;
DAPT isolada pelo mesmo período.
O desfecho primário foi objetivo e robusto: presença de trombo no ventrículo esquerdo detectado por ressonância magnética cardíaca com contraste em 1 mês.
Infelizmente, os números não sustentaram a interessante hipótese. Foram incluídos 560 pacientes, nos quais o trombo ventricular foi detectado em 13,7% dos pacientes no grupo rivaroxabana versus 16,6% no grupo controle (diferença absoluta −2,9%; IC 95% −8,9% a 3,2%; P = 0,34).
Ou seja: sem redução estatisticamente significativa.
Também não houve diferença em eventos cardiovasculares maiores nem no maior diâmetro dos trombos identificados.
🛡️ E quanto à segurança? Sangramentos maiores (BARC ≥ 2) foram raros e semelhantes entre os grupos: 1,5% com rivaroxabana versus 0,7% com DAPT isolada.
Porém, sangramentos menores (BARC 1) foram significativamente mais frequentes no grupo anticoagulado: 16,4% versus 7,2% (diferença 9,3%; IC 95% 3,6%–14,8%).
Em resumo: a estratégia não reduziu de forma significativa a formação de trombo ventricular esquerdo em 1 mês, mas aumentou sangramentos menores.
❌ Portanto, por ora, não temos evidência robusta para recomendar anticoagulação em baixa dose de rotina com o objetivo específico de prevenir trombo no VE após IAM anterior.
Ainda assim, o estudo é extremamente relevante. Ele nos mostra que a tripla terapia curta com dose baixa de DOAC é relativamente segura do ponto de vista de sangramento maior nesse contexto, mas não entrega o benefício esperado no desfecho anatômico.
Biologia plausível nem sempre se traduz em benefício clínico.
E, no infarto anterior, seguimos dependentes do bom e velho acompanhamento com imagem e anticoagulação dirigida apenas quando o trombo é documentado.
Cardiologia no Admirável Mundo Novo
por Diandro Mota
Uma pergunta incômoda foi apresentada recentemente aos cardiologistas no JACC State-of-the-Art Review 2026:
Estamos vivendo a maior revolução tecnológica da cardiologia… mas por que a mortalidade cardiovascular estagnou?
Na última década, vivenciamos a era das terapias transformadoras:
PCSK9 e siRNA → LDL em níveis antes impensáveis;
iSGLT2 → quarto pilar da IC;
aGLP-1 e aGIP/GLP-1 → obesidade, MACE e até IC FEP;
RNA terapêutico e CRISPR → possibilidade real de tratamentos duradouros (e até curativos).
Nunca tivemos um arsenal tão potente.
No campo da tecnologia em saúde, a Cardiologia talvez seja a especialidade mais preparada para liderar a IA:
ECG digital;
Imagem estruturada;
Wearables;
Dispositivos implantáveis.
No entanto, mesmo com terapias eficazes, grande parte dos pacientes com DAC mantém LDL acima da meta, assim como na hipertensão, o controle pressórico adequado ainda é insuficiente.
Tendo como exemplo os dois cenários responsáveis pela maior parte da carga global da doença cardiovascular, fica evidente que o desafio não é descobrir. É implementar, escalar e garantir acesso.
O artigo nos faz refletir sobre a visão de que o futuro da cardiologia não será definido apenas por inovação molecular ou inteligência artificial. Será definido por quem conseguir transformar inovação em impacto populacional real.
Não basta aprovar drogas. Precisamos reduzir hospitalizações e mortes (de forma equitativa). E talvez essa seja a grande missão da nossa geração.
Mais uma vez, fica claro que o desafio do “knowledge translation” ainda está longe de ser superado!
O CFM na era da IA
Caiu na Mídia
O Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução CFM nº 2.454/2026, que estabelece as diretrizes fundamentais para o uso ético e seguro da inteligência artificial na medicina brasileira.
A resolução estabelece regras para pesquisa, desenvolvimento, governança, auditoria, monitoramento e uso responsável de sistemas de IA, sempre com foco em segurança, transparência, ética e direitos fundamentais do paciente.
Não se trata de frear inovação, mas de organizar o território.
O texto é explícito: a IA pode ser usada como instrumento de apoio à decisão clínica, gestão, pesquisa e educação, mas a responsabilidade final é sempre do médico.
Mais do que isso:
O médico não é obrigado a seguir automaticamente recomendações da IA.
Pode recusar sistemas sem validação científica adequada.
Não pode ser responsabilizado por falhas exclusivamente atribuíveis ao sistema, desde que tenha atuado de forma crítica e diligente.
A máquina sugere, o médico decide.
A resolução incorpora, ainda, conceitos que até pouco tempo eram discutidos apenas em congressos de tecnologia: auditabilidade, explicabilidade e contestabilidade.
Todo sistema deve permitir, sempre que tecnicamente possível:
Auditoria independente;
Explicação compreensível das decisões;
Possibilidade de revisão humana.
Nenhuma decisão automatizada em saúde pode ser definitiva sem supervisão humana.
Nesse contexto, o CFM também cria uma categorização formal de risco: baixo, médio, alto ou inaceitável.
Baixo risco: funções administrativas (agendamento, logística).
Médio risco: apoio à decisão clínica com supervisão ativa.
Alto risco: sistemas que influenciam decisões críticas ou automatizam condutas com potencial impacto relevante na saúde.
Por fim, o texto reforça a obrigatoriedade de cumprimento da LGPD e impõe padrões mínimos de segurança da informação.
Privacidade deve ser incorporada desde a concepção do sistema (privacy by design) e configurada por padrão no nível máximo de proteção (privacy by default). O uso de dados para treinamento e retreinamento exige base legal adequada e respeito aos princípios éticos.
Talvez o ponto mais importante seja: o uso da IA não dilui responsabilidade ética ou legal.
Ao mesmo tempo, o CFM reconhece a importância da inovação responsável, estimulando desenvolvimento tecnológico dentro de parâmetros éticos claros.
Fique por dentro
🥊 Briga entre três gigantes. Estudo compara risco de internação por IC em diabéticos tratados com análogos de GLP-1, inibidores de DPP 4 e iSLGT2.
🔮 Chamem os videntes! AHA publica documento com projeção da carga de doenças cardiovasculares e AVC sob a saúde pública para 2050.
🍔 Você se importa com o status nutricional do seu cardiopata? AHA publica documento ressaltando importância para a recuperação e prognóstico de pacientes internados por afecção cardíaca aguda.
🏅 Beta-bloqueadores, antiplaquetários e outras drogas… EHJ elege os 10 artigos mais importantes de 2025 sobre doença isquêmica do coração.
🔄 Atenção às mudanças! Troca por DOAC pode não ser segura em idosos em uso regular (e acostumados) com varfarina. Estudo coreano mostra maior ocorrência de sangramentos após troca para os novos anticoagulantes.
🫁 Trombectomia mecânica assume o protagonismo no TEP. Dados de quase 3.000 pacientes do registro PERT mostram que, entre 2016 e 2024, o uso de trombectomia mecânica (MT) cresceu 18% ao ano e ultrapassou a trombólise dirigida por cateter (CDT) como principal estratégia intervencionista.
📝 Da anatomia à técnica: entender para prevenir. A revisão explora etiologia e fatores de risco para o leak paravalavar na TAVI, como calcificação assimétrica, sizing inadequado e implante subótimo, além de destacar o papel da imagem multimodal no diagnóstico preciso.





