Entre hormônios, IA e ultraprocessados
O coração aguenta tudo isso?
O que você verá hoje:
🩺 A enfermagem pode reduzir reinfarto? Um estudo mostra que acompanhamento estruturado salva mais do que parece.
🔥 Testosterona em mulheres: reposição hormonal… ou otimização de performance? O boom da testosterona feminina acende um alerta cardiovascular.
🍔 Ultraprocessados deixaram de ser apenas “má alimentação”. O processamento industrial pode estar se tornando protagonista no risco cardiovascular.
🤖 A IA começou a pensar como médico? Estudo de Harvard coloca modelos de linguagem frente a frente com médicos experientes em emergências reais.
A união faz a força
por Marcos Meniconi
A direção é dada pelo médico, porém o cuidado diário é resultado do belo trabalho da equipe de enfermagem.
Nesta semana, um estudo publicado no EHJ chama atenção para o impacto em desfechos clínicos com trabalho preciso do cuidado coordenado por uma equipe de enfermagem após a ocorrência de uma síndrome coronariana aguda.
Ele foi desenhado como um ensaio pragmático, multicêntrico e randomizado para verificar se a educação estruturada liderada por enfermeiros superaria o acompanhamento hospitalar tradicional.
🎯 A intervenção: programa de intervenção coordenado pela enfermagem (NCPP).
Estrutura: 9 sessões individuais ao longo de um período de 4 anos.
Foco: identificação de fatores de risco cardiovascular (CV), aconselhamento sobre estilo de vida (dieta/exercício) e estímulo à adesão medicamentosa.
Equipe: enfermeiros com treinamento centralizado.
Desfechos duros:
📉 MACE Primário (Morte CV, IAM não fatal e AVC): redução significativa de 16,2% no grupo NCPP vs. 22,6% no grupo SOC.
Isso representa um Hazard Ratio (HR) de 0,70 (P < 0,001), ou seja, uma redução de 30% no risco relativo.
💔 Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) Não Fatal: Este foi o principal driver do desfecho primário.
O grupo NCPP apresentou 9,3% de eventos contra 15,2% no SOC (HR 0,60; P = 0,0001).
💉 Revascularização Dirigida por Isquemia: O desfecho secundário composto (MACE + revascularização) também foi significativamente menor no grupo intervenção (HR 0,77; P = 0,005).
Determinantes Comportamentais do Sucesso
O ensaio não rastreou apenas óbitos e infartos; ele analisou o porquê desses pacientes apresentarem melhor evolução. O grupo NCPP mostrou melhorias estatisticamente significativas em três áreas críticas:
Frequência de Exercícios: Pacientes foram mais ativos fisicamente (P < 0,0001).
Controle de Peso: Melhor controle do peso corporal (P = 0,003).
Adesão Farmacoterapêutica: Pacientes foram mais consistentes com os medicamentos prescritos (P < 0,001).
Ao focar nos elementos “humanos” da recuperação (hábitos, compreensão e persistência) os programas liderados por enfermeiros reduzem efetivamente a carga clínica da doença cardiovascular.
Para quem acredita que seriam necessárias sessões e mais sessões de cuidado para melhorar o cuidado dos pacientes, fica a mensagem: com consultas técnicas e direcionadas a cada 6 meses podemos melhorar o prognóstico dos pacientes!
Na era da testosterona
por Maria Júlia Souto
Um pouquinho aqui apenas para melhorar a libido, mais um pouquinho para os sintomas do climatério, e por que não para ajudar no shape?…
E assim o uso da testosterona para “reposição” hormonal em mulheres vem só crescendo em todo lugar (se é que podemos chamar de “reposição” algo que nunca tivemos rs).
Um estudo publicado no JACC: Advances analisou o crescimento acelerado na prescrição de testosterona para mulheres nos Estados Unidos entre 2016 e 2025.
E parece que elas estão vivendo um “movimento Virgínia”: nos EUA, a taxa de prescrição aumentou 2,6 vezes em menos de uma década, em uma explosão impressionante.
Após anos relativamente estáveis, a curva simplesmente disparou a partir de 2021, crescendo mais de 30% ao ano. Em 2025, foram mais de 90 mil prescrições registradas, um aumento de quase 60% em relação ao ano anterior.
Essa “moda” tem atingido majoritariamente mulheres entre 45 e 64 anos, responsáveis por mais de 60% das prescrições, em especial para o tratamento de sintomas relacionados ao climatério, baixa libido e “terapia hormonal”.
Apesar de a única indicação respaldada para a prescrição da testosterona em mulheres ser o transtorno do desejo sexual hipoativo (HSDD), adivinha quantas prescrições tinham esse diagnóstico formal? Apenas 8,2%.
Mesmo sem conhecermos plenamente o benefício real para muitos dos quadros em que ela vem sendo utilizada, e muito menos sua segurança cardiovascular a longo prazo em mulheres, a testosterona parece ter entrado oficialmente no “pacote wellness hormonal”.
Vivemos em uma sociedade que exige produtividade constante, disposição infinita e corpos quase inalcançáveis por cada vez mais tempo. E muitas mulheres, especialmente na perimenopausa, acabam “apelando” para terapias hormonais na tentativa de continuar performando no mesmo ritmo.
O problema é que o corpo cardiovascular talvez não acompanhe esse discurso de “otimização” com tanta facilidade. Porque justamente nessa fase da vida feminina a aterosclerose começa silenciosamente a acelerar após a menopausa. E os dados de segurança cardiovascular da testosterona em mulheres continuam extremamente limitados.
Além disso, mais da metade das mulheres do estudo apresentavam pelo menos um fator de risco cardiometabólico documentado, como hipertensão, diabetes ou dislipidemia.
No fundo, talvez essa discussão vá muito além da testosterona. Ela fala sobre envelhecimento, sobre pressão estética, sobre performance. E sobre a dificuldade moderna de aceitar que o corpo muda.
E se queremos cuidar adequadamente dessas pacientes, precisamos ir além do “pode ou não pode hormônio”. Precisamos orientar com honestidade sobre riscos, limitações e incertezas… mas também entender as demandas reais dessas mulheres e conduzi-las, quando necessário, às estratégias hormonais mais seguras e individualizadas possíveis.
Ultraprocessados: o novo “elefante na sala” da cardiologia?
por Diandro Mota
Durante muitos anos, a conversa entre alimentação e saúde cardiovascular girou em torno de nutrientes isolados: gordura saturada, colesterol, sal, açúcar.
Mas, um novo documento publicado nesta semana no European Heart Journal propõe uma mudança importante de perspectiva: talvez o problema não seja apenas o que estamos comendo… mas o quanto os alimentos foram transformados pela indústria.
O consenso clínico aborda o impacto dos alimentos ultraprocessados (UPFs: ultra-processed foods) sobre a saúde cardiovascular e faz um alerta direto aos cardiologistas: avaliar o consumo desses produtos deveria passar a fazer parte da rotina clínica.
Antes que vocês achem que estamos falando apenas das “besteiras”, já vou avisando que o conceito de ultraprocessado vai muito além de refrigerante e salgadinho.
Os autores utilizam a classificação NOVA, que divide os alimentos de acordo com o grau de processamento industrial.
Na prática, os ultraprocessados são formulações industriais compostas por ingredientes refinados, aditivos, emulsificantes, aromatizantes, corantes e substâncias criadas para aumentar hiperpalatabilidade, durabilidade e consumo repetido.
O ponto mais interessante do consenso é que os efeitos negativos desses alimentos parecem ir além da simples composição nutricional.
Mesmo após ajuste para calorias, gordura saturada, açúcar e sódio, diversos estudos prospectivos continuaram mostrando associação entre ultraprocessados e pior desfecho cardiovascular.
Ou seja: não é apenas “comer muito açúcar”.
Existe algo no próprio processamento industrial (aditivos, alteração da matriz alimentar, compostos neoformados, embalagens, velocidade de absorção, impacto no microbioma intestinal e no comportamento alimentar) que pode estar contribuindo para inflamação, disfunção metabólica e aumento do risco cardiovascular.
O documento reúne, ainda, evidências consistentes associando maior consumo de ultraprocessados com:
obesidade e ganho de peso;
DM2;
HAS;
dislipidemia;
doença hepática gordurosa;
doença renal crônica;
fibrilação atrial;
maior incidência de doença cardiovascular;
aumento da mortalidade cardiovascular.
Em alguns estudos, cada aumento de 10% na ingestão de ultraprocessados esteve associado a aumento significativo do risco cardiovascular.
Outro ponto forte do consenso é reconhecer que muitos produtos vendidos como “fit”, “light”, “zero” ou “saudáveis” continuam sendo ultraprocessados.
Um iogurte “proteico” cheio de espessantes, aromatizantes e adoçantes pode ter excelente marketing… mas ainda assim carregar características metabólicas problemáticas.
Talvez estejamos entrando em uma nova era da nutrição cardiovascular: menos focada apenas em macronutrientes isolados e mais preocupada com a integridade do alimento.
O consenso, por fim, traz que a abordagem não precisa ser extremista. O objetivo não é criar terrorismo nutricional nem transformar pacientes em “detetives de rótulo” neuróticos.
A proposta é simples: aumentar o protagonismo de alimentos minimamente processados e reduzir a dependência de produtos industriais hiperpalatáveis.
E lá vem eles de novo…
Caiu na Mídia
Quantas matérias você já viu em que a inteligência artificial (IA) superou os médicos em algum aspecto?
Algumas, eu imagino. E aí veio mais uma… em um verdadeiro sentimento de 7x1 rs.
Um grande estudo, feito nada mais nada menos que em Harvard, demonstrou que modelos de linguagem baseados em IA conseguiram superar médicos experientes em tarefas de raciocínio clínico, especialmente em cenários de emergência com pouca informação disponível.
E antes que você pense “pronto, acabou pra nóis”, calma.
A história é um pouco mais interessante, e mais complexa, do que as manchetes fazem parecer.
O estudo publicado na revista Science avaliou o desempenho do modelo OpenAI o1 em diferentes desafios clínicos: desde casos clássicos de diagnóstico diferencial até situações reais de pronto-socorro. E o resultado realmente chamou atenção.
Nos casos de triagem inicial no departamento de emergência, a IA acertou o diagnóstico exato ou muito próximo em cerca de 67% dos casos, enquanto médicos experientes ficaram entre 50-55% (vamos estudar mais, hein galera de Harvard? rs).
Além disso, os pesquisadores ainda testaram a IA em planejamento terapêutico, interpretação de casos complexos e seleção de exames complementares. Em vários cenários, o modelo superou médicos utilizando recursos tradicionais de consulta.
Como se a humilhação não estivesse completa ainda trouxeram um interessante relato em um caso envolvendo tromboembolismo pulmonar: os médicos acreditaram que o anticoagulante estava falhando. A IA, no entanto, percebeu um detalhe ignorado: o paciente tinha lúpus, e a piora clínica poderia estar relacionada à doença inflamatória de base. A hipótese da IA estava correta.
Dá um leve desconforto ler isso? Dá.
Porque, pela primeira vez, começamos a entrar em um território no qual a IA não está apenas automatizando tarefas burocráticas… ela está participando ativamente do processo cognitivo da medicina.
Mas que talvez o processo por trás disso tudo? O próprio artigo reforça que a IA foi avaliada apenas com dados textuais.
Ela não examinou o paciente, não viu expressão facial, não percebeu sofrimento, não interpretou linguagem corporal, não construiu vínculo, não acolheu família, não tomou decisão compartilhada…
Em outras palavras: ela funcionou como uma espécie de “super segunda opinião”. E é esse o ponto! Um cenário “médico + IA”.
Os próprios autores falam em um novo modelo de cuidado “triádico”: paciente, médico e inteligência artificial trabalhando juntos.
E honestamente? Isso já começou.
Hoje muitos médicos usam IA para discutir hipóteses diagnósticas, resumir literatura, revisar condutas e organizar raciocínio clínico. Não dá para negar que no sentido unir informações teóricas e criar uma resposta pragmática a IA será melhor que qualquer um de nós.
Mas a IA não tem o poder, ainda, de “construir” nada sozinha. Ela une aquilo que disponibilizamos a ela e monta respostas de forma mais eficiente e organizada.
Se não pode vencê-los, recomendo que você junte-se a eles.
Fique por dentro
🛟 Nem toda assistência ventricular ajuda na angioplastia de alto risco. No CHIP-BCIS3, o uso eletivo de bomba microaxial não reduziu eventos maiores em pacientes com disfunção ventricular grave submetidos a angioplastia complexa, levantando dúvidas sobre benefício rotineiro da estratégia.
🫀 A tomografia coronária entrou na era da IA, agora enxergamos a placa, não só a estenose. Documento do ACC destaca como a análise quantitativa de placas por IA (QCPA) pode refinar estratificação de risco, monitorar progressão da aterosclerose e personalizar decisões terapêuticas, mas reforça: ainda precisamos padronizar como usar isso na prática clínica.
🗣️ Amiloidose ATTR ainda passa despercebida, mesmo gritando nos corredores. Revisão mostra avanço nos modelos de predição de risco para ATTR-CM, mas reforça que ainda faltam estratégias bem validadas e aplicáveis no mundo real para rastrear pacientes precocemente e reduzir o subdiagnóstico da doença.
🧮 Qual limiar de FFR gera angina? Estudo mecanístico ORBITA-FIRE demonstra na prática como limiares de FFR e RFR são variáveis entre indivíduos e sugerem a possibilidade de uma conduta individualizada dos pacientes.
🌳 O ambiente também leva ao infarto, e já passou da hora de tratarmos isso como fator de risco. Documento da ESC conecta poluição, calor, ruído, luz artificial e contaminantes químicos ao aumento de DAC, AVC, IC e arritmias, reforçando que saúde cardiovascular também depende da cidade onde vivemos.
☢️ Coronária por tomografia não é “coisa de jovem”. Grande registro mostra que, mesmo após os 65 anos, a angiotomografia mantém valor prognóstico importante: placas extensas e lesões obstrutivas seguiram associadas a mais eventos cardiovasculares, reforçando seu papel também nos pacientes mais idosos.
💊 Sacubitril-Valsartana para tratamento da IC FEP (ainda não desistimos rs?). Estudo pequeno com 84 pacientes sugere benefícios com relação a pico de atividade física e VO2 em pacientes com IC FEP e insuficiência mitral que receberam Sacubitril-Valsartana.





