Autor: Diandro Marinho Mota (Cardiologista do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia; Diretor Médico da Neomed Healthtech. Doutor em Medicina/Tecnologia e Intervenção em Cardiologia pela USP/IDPC).
Texto original: Diandro Marinho Mota
Toda semana, alguém chega ao meu consultório ou ao pronto-socorro com dor no peito, palpitação ou uma arritmia sem explicação óbvia e, em algum momento da investigação, duas perguntas simples raramente são feitas com o rigor que deveriam: você usa cannabis? Qual é o seu padrão de consumo de álcool?
Não é falta de interesse. É que, durante décadas, a cardiologia tratou essas duas substâncias como periféricas ao cuidado cardiovascular — questões de “estilo de vida”, quando muito, ou pior: como não sendo da nossa alçada.
Essa lacuna ficou mais perigosa nos últimos anos. A legalização da cannabis em boa parte do mundo mudou o acesso e a percepção de risco, mas não veio acompanhada de uma atualização equivalente na prática clínica.
E o consenso sobre álcool, que por muito tempo pareceu resolvido (“uma taça de vinho por dia protege o coração”), foi desmontado por metodologia mais rigorosa nos últimos dois anos.
Se você formou sua opinião sobre qualquer uma dessas substâncias há mais de cinco anos, ela provavelmente está desatualizada.
Escolhemos esse tema exatamente por isso: é onde a distância entre o que a evidência mais recente mostra e o que ainda praticamos no dia a dia é maior. E, coincidentemente, é também um dos temas mais antigos da história humana — o que torna essa distância ainda mais intrigante.


