No bloquinho da DozeNews
Carga amiloide, revisão da diretriz nutricional e subanálise do EXCEL
No bloco da carga amiloide
por Maria Júlia Souto
Sempre aceitamos que a estratificação da amiloidose cardíaca fosse… suficiente. Biomarcadores, classe funcional, cintilografia, ecocardiograma. Funcionam? Até que funcionam…
Mas se compararmos com outras cardiopatias, em que já discutimos carga de fibrose, extensão de cicatriz, massa ventricular, função global e regional com precisão quase milimétrica, fica claro que algo faltava na ATTR: uma medida direta da carga de doença.
Na amiloidose, sempre falamos de infiltração. Mas quanta infiltração, exatamente?
É aqui que o volume extracelular (ECV) ganha protagonismo. Tradicionalmente usado na ressonância magnética cardíaca como ferramenta diagnóstica, ele agora passa a ser encarado como um verdadeiro marcador quantitativo da carga amiloide miocárdica, com implicações diagnósticas e prognósticas.
No estudo de Sheikh et al., publicado no JACC, foram avaliados 1.541 indivíduos abrangendo todo o espectro da amiloidose ATTR:
Portadores de variantes TTR assintomáticos (n = 123);
Pacientes com ATTR extracardíaca comprovada por biópsia, mas sem envolvimento cardíaco clínico (n = 41);
Pacientes com ATTR-CM em estágio inicial (grau 1 de Perugini) (n = 70);
Pacientes com ATTR-CM manifesta (n = 1.308).
O objetivo foi avaliar se o uso da RMC para quantificar o ECV permite definir limiares calibrados de carga amiloide e validar seu valor diagnóstico e prognóstico em todo o espectro da doença. Para isso, estratificou a carga amiloide em 5 categorias de infiltração:
Ausente: <30%.
Leve: 30% a 39%.
Moderada: 40% a 49%.
Moderada a grave: 50% a 59%.
Grave: ≥60%
O primeiro achado já muda a perspectiva. O ECV foi semelhante entre portadores assintomáticos e pacientes com ATTR extracardíaca e só começou a aumentar quando havia, de fato, infiltração miocárdica.
À medida que a doença evoluía para cardiomiopatia manifesta, o ECV subia progressivamente, refletindo de forma direta a carga de depósito amiloide.
Outro ponto crucial: a correlação do ECV com NT-proBNP, troponina, classe funcional, grau de Perugini ou massa ventricular foi apenas modesta, com ampla sobreposição entre categorias. Biomarcadores capturam consequência fisiopatológica, estresse miocárdico, ativação neuro-hormonal, remodelamento. O ECV mede o substrato, ele quantifica o depósito em si.
O estudo foi capaz de definir dois cortes extremamente práticos:
ECV <30% praticamente exclui envolvimento cardíaco, com sensibilidade próxima de 99%;
ECV ≥40% praticamente confirma cardiomiopatia amiloide estabelecida, com especificidade também próxima de 99%.
Entre 30% e 39% surge uma zona intermediária de infiltração precoce, muitas vezes com biomarcadores discretamente alterados e pacientes ainda em classes funcionais baixas, mas já com carga miocárdica detectável.
O ECV também foi preditor independente de mortalidade. Durante seguimento mediano de 2,8 anos, 40% dos pacientes morreram. A cada aumento absoluto de 10% no ECV, o risco de morte aumentava 22%, mesmo após ajuste para idade, sexo, estágio NAC, troponina, grau de captação na cintilografia, massa ventricular e fração de ejeção.
🎯 Em um cenário terapêutico em expansão, com estabilizadores, silenciadores e terapias depletoras em desenvolvimento, medir a carga real de amiloide deixa de ser apenas interessante e passa a ser estratégico. Se o alvo terapêutico inclui o depósito existente, precisamos quantificá-lo.
Assim como usamos T2* para guiar terapia na sobrecarga de ferro, o ECV pode se tornar o marcador quantitativo que organiza diagnóstico, estadiamento, seleção para estudos e, possivelmente, monitorização de resposta na ATTR.
Sabor evidência científica
por Diandro Mota
🎙️ Se você pausou o “Jet Ski”e a “Vampirinha” dos seus fones nos últimos dias para ouvir o DozeCast (equilíbrio é tudo, meus amigos rs), deve ter conferido o nosso episódio especial sobre as novas Diretrizes Alimentares dos Americanos, um documento político com “sabor evidência científica.”
Pra trazer ainda mais de sobriedade ao tema um estado da arte foi publicado no JACC Advances (2026). O artigo reuniu especialistas internacionais para colocar os “pingos nos is” nas controvérsias nutricionais que dominam redes sociais, podcasts e consultórios, muitas vezes com mais opinião do que ciência.
A revisão organizou os principais alimentos e nutrientes controversos em três categorias práticas: evidência de benefício, ausência de evidência consistente, e evidência de dano, oferecendo uma tradução direta para decisões clínicas do dia a dia.
1️⃣ Evidência consistente de benefício
Óleos vegetais (seed oils): ricos em PUFA (ácidos graxos poli-insaturados) e MUFA (ácidos graxos monoinsaturados), associados a melhora do perfil lipídico, redução de risco cardiovascular e ausência de evidência inflamatória clínica relevante.
Peixes e frutos do mar: consumo de ≥2 porções semanais relaciona-se à redução de eventos cardiovasculares, especialmente por ação dos ômega-3 EPA e DHA.
Substituir gorduras saturadas por gorduras insaturadas continua sendo uma das intervenções nutricionais com maior robustez de evidência cardiovascular.
2️⃣ Evidência insuficiente ou controversa
Laticínios integrais: dados atuais não mostram diferença clara de risco cardiovascular quando comparados a versões desnatadas, embora contribuam para ingestão de gordura saturada.
MCT oil: utilidade terapêutica em contextos específicos (ex.: epilepsia, síndromes de má absorção), mas sem evidência sólida para benefício cardiometabólico populacional.
Stevia e monk fruit: evidência cardiovascular ainda limitada.
Nem tudo que é trending precisa virar recomendação clínica.
3️⃣ Evidência de dano ou recomendação de limitar:
Sebo bovino (beef tallow): aumento consistente de LDL-C e associação com maior risco cardiovascular quando comparado a óleos insaturados.
Ultraprocessados: associados a obesidade, diabetes, doença cardiovascular e mortalidade prematura.
Adoçantes artificiais e alguns polióis: estudos observacionais e mecanísticos sugerem associação com maior risco cardiovascular e eventos trombóticos, embora persistam debates sobre causalidade.
A discussão nutricional moderna não é mais apenas “macronutrientes”, mas matriz alimentar e grau de processamento.
Talvez o ponto mais relevante do artigo seja conceitual: a maior parte das controvérsias nutricionais atuais não nasce de novas evidências científicas, mas da amplificação de interpretações incompletas em mídias sociais.
A ciência continua avançando incrementalmente. Já o ruído… esse cresce exponencialmente.
📩 Take-home message:
Uma alimentação cardioprotetora em 2026 não mudou radicalmente. O padrão que permanece consistente é:
Predomínio de alimentos minimamente processados;
Substituição de gorduras saturadas por insaturadas;
Consumo regular de peixes;
Redução de ultraprocessados e excesso de adoçantes.
O resto? Muitas vezes é apenas hype nutricional com marketing de alta performance.
A tradição tem seu valor

Em meio a uma enxurrada de novidades, certas tradições nunca perdem o pedestal. O que seria do carnaval de Salvador sem Ivete, Bell e Daniela? Do Rio sem as escolas de samba? De Olinda sem o frevo?
Na cardiologia, gostemos ou não das polêmicas, o EXCEL segue sendo um dos grande nomes quando falamos de lesão de tronco da coronária esquerda.
Dessa vez, os autores saíram do debate clássico angioplastia (PCI) versus cirurgia (CRM) e focaram em algo que sempre nos preocupa, mas raramente é explorado com profundidade:
👉 o infarto após a revascularização.
Apesar de frequente e fonte de preocupação dos cardiologistas, a ocorrência de infarto após a terapia de revascularização, seja qual for a estratégia utilizada, foi pouco explorada por estudos clínicos.
Qual prognóstico do IAM após a revascularização? Qual a frequência de IAM nestes pacientes? Qual o vaso acometido?
Estas perguntas foram o alvo dessa análise da coorte do Excel trial.
Foram analisados 1.882 pacientes tratados para doença de tronco:
952 submetidos a PCI
930 submetidos a CRM
Durante 5 anos, o IAM espontâneo foi relativamente infrequente (4,7% no total), mas ocorreu duas vezes mais após PCI:
6,8% na PCI
3,4% na CRM
E aqui começa a parte mais relevante.
O impacto prognóstico
O IAM espontâneo foi um fortíssimo preditor de mortalidade:
Mortalidade cardiovascular: HR 9,39
Mortalidade geral: HR 4,77
Sim, você leu certo: quase 10 vezes mais risco de morte cardiovascular após um IAM espontâneo.
Já o IAM periprocedimento também se associou a mortalidade, mas com menor magnitude:
Mortalidade cardiovascular: HR 3,02
Mortalidade geral: HR 2,38
Ou seja: IAM espontâneo pesa muito mais que IAM periprocedimento.
De onde vêm esses infartos?
O detalhe interessante é que o excesso de IAM após PCI foi explicado principalmente por:
Trombose de stent;
Reestenose intra-stent (tipo 4b e 4c).
E não por “proteção mágica” do enxerto contra placas proximais vulneráveis — uma hipótese frequentemente levantada, mas não confirmada na análise detalhada angiográfica
🎯 Concluindo: a ocorrência de IAM espontâneo demonstra maior risco de morte em relação ao IAM periprocedimento, porém ambos foram associados a mortalidade!
Precisamos ressaltar a diferença entre os pacientes submetidos a PCI ou CRM no procedimento index. Fica clara a proteção a longo prazo da estratégia cirúrgica.
Pulmões de aço no gelo
Caiu na Mídia
Uma pausa na programação carnavalesca para outro assunto que tem dominado as mídias na última semana: as Olimpíadas de Inverno.
E falar de esportes de inverno é falar dos “superVO2” do planeta. Tente imaginar atletas subindo montanhas sobre esquis a ritmos absurdos.
Imaginou? É justamente no esqui cross-country que encontramos alguns dos maiores VO₂máx já registrados no esporte: 70–85 ml/kg/min nos homens e 60–75 ml/kg/min nas mulheres.
Para colocar em perspectiva, vimos o norueguês Johannes Klaebo imprimir um pace equivalente a 3:11 min/km, algo próximo de 18 km/h. Subindo. No gelo. De esqui.
Mas não é só a neve que produz super pulmões. Logo atrás no ranking aparecem:
Ciclismo de estrada (70–84 ml/kg/min);
Maratona (70–80 ml/kg/min);
Remo (68–75 ml/kg/min);
Triatlo olímpico (68–76 ml/kg/min).
Todos esportes de endurance contínuo, com predominância superior a 80% do metabolismo aeróbico.
E por falar em números impressionantes, o triatleta Kristian Blummenfelt recentemente chamou atenção ao atingir 101,1 ml/kg/min em teste cardiopulmonar. Sim, três dígitos.
Impressiona? Muito. Mas aqui vai o ponto mais importante: embora o VO₂máx seja fascinante, por mostrar até onde o corpo humano consegue levar o transporte de oxigênio, ele não ganha competições sozinho.
Performance depende também de economia de movimento, técnica, estratégia, limiar anaeróbico, força mental e contexto competitivo. Muitas vezes, esses fatores pesam tanto quanto, ou até mais, do que o número isolado no laudo.
Fique por dentro
📏 Não é só ver a placa, é medir. Em mais de 4.200 pacientes sintomáticos sem DAC conhecida, a quantificação volumétrica da placa por angiotomografia coronária mostrou valor prognóstico independente para MACE, além dos fatores clínicos e da análise qualitativa tradicional.
💊 Diabetes + DAC multiarterial: ticagrelor ou prasugrel? No TUXEDO-2, estudo randomizado com 1.800 diabéticos submetidos à PCI, o ticagrelor não foi não inferior ao prasugrel para o desfecho combinado de morte, IAM, AVC ou sangramento maior em 1 ano.
⁉️ Depois de 1 ano do stent, precisa mesmo manter clopidogrel? No estudo ADAPT AF-DES, apresentado no último congresso da AHA, em pacientes com FA e stent farmacológico implantado há pelo menos 1 ano, a monoterapia com NOAC foi não inferior, e ainda superior, à combinação com clopidogrel para eventos clínicos combinados.
🎯 Valsalva turbinada: agora vai? Em estudo randomizado com pacientes em TSV induzida, o uso de um dispositivo portátil para auxiliar a manobra de Valsalva mais que dobrou a taxa de reversão imediata para ritmo sinusal em comparação à técnica padrão.
🫀Amiloidose ATTR deixou de ser zebra. Cada vez mais reconhecida como causa de insuficiência cardíaca no idoso, o JACC traz importante revisão sobre o diagnóstico e manejo atual da ATTR-CM.
3️⃣ 1 é pouco, 2 é bom, 3 é melhor ainda? No estudo fase 3 HM-APOLLO, a combinação fixa de anlodipino 1,67 mg + losartana 16,67 mg + clortalidona 4,17 mg reduziu a pressão sistólica de forma semelhante ao anlodipino 5 mg e superior à losartana 50 mg em 8 semanas.
🧬 Testar CYP2C19 vale a pena? Depende da estratégia. Metanálise com mais de 6.700 pacientes com SCA submetidos à angioplastia mostrou que a estratégia guiada por genótipo não reduziu MACE globalmente, mas trouxe benefícios específicos quando analisada por tipo de ajuste terapêutico.
🦀 Câncer e aterosclerose: dois lados da mesma inflamação. Statement destaca a convergência crescente entre doença coronariana e câncer, impulsionada por fatores compartilhados, tabagismo, obesidade, diabetes, e por mecanismos comuns como inflamação e disfunção endotelial.
🫁 A classificação de hipertensão pulmonar tem suas dificuldades… Estudo publicado no Circulation demonstra que 1 a cada 5 pacientes classificados como tipo 1 apresentam hipertensão capilar e sugere que estes pacientes fazem parte de outro fenótipo da doença com evolução clinica distinta.
4️⃣ Quanto mais melhor? Estudo italiano demonstra tratamento com terapia quádrupla mais eficaz da hipertensão resistente em comparação com tripla. O estudo é pequeno e sem objetivo de constatar desfechos clínicos.




