Entre stents, cálcio e TAVI
EuroPCR 2026 e muito mais...
O que você verá nesta edição:
🫀 O EuroPCR 2026 trouxe as principais novidades no mundo da intervenção. Do tratamento da dislipidemia, das lesões calcificadas ao resultados precoces na TAVI.
🔬 ANOCA, microvasculatura e testes funcionais: precisamos começar a olhar o tratamento da angina além da obstrução epicárdica.
🌉 Ponte miocárdica: será que a cirurgia pode mesmo ajudar na melhora dos sintomas?
💉 A retatrutida vem aí: quase 30% de perda de peso e números próximos da cirurgia bariátrica.
EuroPCR 2026
por Marcos Meniconi
São tantos congressos na cardiologia que, sinceramente, já está ficando difícil acompanhar tudo…
E pior: além dos grandes eventos mainstream, ainda existem os congressos das subespecialidades, que frequentemente escondem estudos extremamente relevantes para a prática clínica.
Mas calma… a DozeNews já fez o trabalho pesado por você. 😎
Talvez muita gente nem tenha percebido, mas, na última semana, aconteceu o EuroPCR 2026, um dos principais congressos de cardiologia intervencionista.
E como já virou tradição por lá, além das intermináveis discussões de casos complexos, vídeos de procedimentos e debates técnicos quase cinematográficos, estudos importantes foram apresentados com publicação simultânea
Bora para os principais destaques?
💊 E teve surpresa logo de cara: os intervencionistas resolveram falar… de dislipidemia!
Sim, meus amigos, o LDL continua sendo o verdadeiro vilão da história. O estudo VESALIUS-CV mostrou o impacto impressionante da redução do LDL em pacientes com doença arterial coronariana submetidos previamente à angioplastia, mas sem história de infarto (ou seja, uma população teoricamente de menor risco quando comparada aos pacientes pós-IAM).
E o resultado chamou atenção: o evolocumab reduziu em cerca de 30% o desfecho composto de morte cardiovascular, infarto e AVC, além de reduzir aproximadamente 50% o risco de infarto.
Traduzindo: não existe “paciente pouco grave” quando o assunto é aterosclerose. O LDL continua cobrando a conta… cedo ou tarde.
🪨 E já que estamos falando de angioplastia, chegou a hora daquele pesadelo clássico do intervencionista: a lesão calcificada. “Há uma pedra no meio do caminho”… e às vezes essa pedra parece um concreto armado coronariano. 😅
O estudo ICARE OFDI comparou diretamente duas grandes estratégias para preparo dessas lesões: a tradicional aterectomia rotacional (o bom e velho Rotablator) versus a litotripsia intracoronária (a tecnologia mais “TikTok generation” da intervenção coronária).
Ambas performaram muito bem. O estudo demonstrou que a litotripsia foi não inferior à aterectomia rotacional em termos de sucesso do procedimento e eventos adversos.
Em outras palavras: estamos bem servidos de arsenal.
Mas os intervencionistas não param de inventar moda… O estudo FRACTURE IDE trouxe uma nova tecnologia chamada SEISMIC 4CE, que utiliza ondas acústicas para fragmentar cálcio superficial e profundo (basicamente como uma ‘caixa de som JBL’ aplicada na placa calcificada rs).
Os resultados iniciais foram bastante animadores, com taxas de segurança e efetividade próximas de 93%, reforçando o potencial da tecnologia para aprovação futura no mercado norte-americano.
🧽 E quando parecia que os stents bioabsorvíveis tinham virado apenas uma lembrança traumática do passado (alô, Absorb 👀), eis que surge o FUTURE II trazendo esperança novamente.
O estudo avaliou uma nova plataforma de stent bioabsorvível com seguimento de 5 anos e encontrou resultados bastante interessantes, sem ocorrência de trombose de stent.
Mas aqui existe um detalhe importante: os pesquisadores foram extremamente criteriosos e incluíram apenas lesões mais curtas (< 25 mm).
O problema talvez nunca tenha sido o conceito do stent bioabsorvível… mas sim a forma como tentamos utilizá-lo no passado.
Será que estamos diante de um comeback? Ainda cedo para saber… mas o paciente zero do retorno já apareceu.
🥊 E teve também aquele tema eterno da cardiologia: angioplastia versus cirurgia no tronco da coronária esquerda.
Uma metanálise com mais de 4700 pacientes e 10 anos de seguimento mostrou ausência de diferença de mortalidade entre angioplastia e cirurgia de revascularização miocárdica.
E o dado ficou consistente inclusive em diversos subgrupos importantes: diabéticos, pacientes multiarteriais e diferentes estratos de escore Syntax.
Isso vai contra uma percepção clássica de que a cirurgia necessariamente “ganharia no longo prazo”. Pelo menos em mortalidade, isso não ficou demonstrado.
Mas calma… antes de decretar vitória do stent, vale lembrar que não foram detalhados desfechos fundamentais como infarto não fatal, AVC e necessidade de novas revascularizações.
Mais dúvidas na mesa do Heart Team. E talvez isso seja ótimo.
🎯 Falando em TAVI (porque obviamente não existe congresso de intervenção sem TAVI), dois temas dominaram as discussões: a realização de angioplastia antes do procedimento e o problema dos gradientes elevados precoces após implante valvar.
Uma metanálise demonstrou benefício relativamente modesto da angioplastia pré-TAVI, especialmente quando guiada por FFR.
O principal benefício observado foi a menor necessidade de novas angioplastias após o implante da prótese, sem diferença relevante em mortalidade, AVC ou infarto.
A sensação que fica? Talvez exista mais espaço para tratamento conservador da DAC nesse cenário do que imaginávamos.
E para finalizar, um alerta importante: um estudo publicado simultaneamente no EuroIntervention mostrou que cerca de 3,1% dos pacientes submetidos ao TAVI desenvolvem deterioração hemodinâmica precoce da prótese, caracterizada pelo aumento do gradiente transvalvar nos primeiros meses após o procedimento.
E isso não foi um simples “achado ecocardiográfico sem importância”: esses pacientes apresentaram maior risco de AVC, disfunção valvar e falha da bioprótese.
Moral da história: aquele aumento “discreto” do gradiente no eco pós-TAVI merece atenção. E talvez mais atenção do que estamos dando atualmente
A angina além da obstrução
por Diandro Mota
Um novo viewpoint publicado no European Heart Journal faz uma revisão extremamente elegante dos principais trials sobre angina estável e deixa uma mensagem muito clara: tratar anatomia nem sempre significa tratar o verdadeiro mecanismo da angina.
Estudos clássicos como COURAGE, ISCHEMIA e ORBITA mostraram que a angioplastia pode melhorar sintomas em pacientes com DAC estável, mas o benefício médio costuma ser modesto quando comparado ao tratamento clínico otimizado.
🎯 E o detalhe mais importante: quem mais melhora não é necessariamente quem tem a maior obstrução… mas quem apresenta maior carga sintomática.
O ORBITA foi particularmente provocador ao mostrar que parte do benefício percebido após ICP também envolve efeito placebo e expectativa terapêutica.
Mas talvez a parte mais fascinante do artigo esteja no universo da ANOCA: pacientes com angina e coronárias sem obstruções significativas.
Durante anos, muitos desses pacientes foram considerados “normais”. Hoje sabemos que muitos apresentam disfunção microvascular coronária ou vasoespasmo, alterações que simplesmente não aparecem na angiografia convencional.
E aqui entra um conceito cada vez mais relevante: Coronary Function Testing (CFT).
Quando os estudos passaram a identificar o mecanismo fisiopatológico da angina e direcionar terapias específicas, os resultados foram impressionantes.
No CorMicA e no ILIAS-ANOCA, terapias guiadas por testes funcionais melhoraram significativamente os sintomas.
Já o CorCMR mostrou melhora superior a 20 pontos no Seattle Angina Questionnaire, um impacto maior do que o observado em muitos estudos de ICP na DAC estável.
Talvez a principal mensagem seja esta: muitos pacientes continuam sintomáticos após uma angioplastia “bem-sucedida” porque o principal mecanismo da angina nunca foi apenas a placa epicárdica.
A cardiologia contemporânea começa a migrar de um modelo puramente anatômico para uma cardiologia guiada por fisiologia.
É hora de atravessarmos essa ponte?
por Maria Júlia Souto
Por anos olhamos para as pontes miocárdicas no cateterismo ou na angiotomografia quase como uma “curiosidade anatômica”. Algo interessante de descrever no laudo (ou até postar no Instagram rs), mas raramente levado realmente a sério.
Afinal, sempre pareceu difícil acreditar que uma condição congênita, marcada por compressão sistólica da coronária (justamente quando a perfusão coronariana ocorre predominantemente na diástole) pudesse ser de fato responsável por sintomas tão importantes.
Tratar clinicamente? Até vai. Um bom e velho beta-bloqueador nunca fez mal a ninguém rs. Mas daí a abrir o tórax de alguém apenas para realizar uma miotomia supra-arterial, o famoso “unroofing”, parecia exagerado demais. Quase uma heresia cardiovascular.
Felizmente, parece que nem todos compartilhavam dessa visão. Essa é a beleza da ciência!
Um grupo de Stanford publicou no European Heart Journal um estudo avaliando os desfechos clínicos e sintomáticos em longo prazo de pacientes com ponte miocárdica funcionalmente significativa submetidos ao unroofing devido à angina refratária apesar do tratamento clínico otimizado.
💡 Entenda a ideia primeiro:
O ponto mais importante aqui é justamente o termo “funcionalmente significativa”.
Porque o estudo não saiu operando qualquer ponte encontrada na angiotomografia. Muito pelo contrário. Estamos falando de uma população extremamente selecionada. Os pacientes tinham angina crônica por mais de 3 meses, coronárias sem obstrução significativa, sintomas persistentes apesar de terapia medicamentosa máxima e uma documentação invasiva robusta de que aquela ponte realmente era hemodinamicamente relevante.
Os pacientes passaram por ecocardiograma de estresse, angiotomografia, IVUS e avaliação fisiológica invasiva com dFFR e RFR sob estresse com dobutamina. Não bastava “ter ponte”. Era preciso provar que ela causava isquemia.
Durante muito tempo, o problema da ponte miocárdica talvez não tenha sido a ponte em si… mas a enorme dificuldade de separar um achado anatômico inocente de uma lesão verdadeiramente causadora de angina.
No total, foram incluídos 218 pacientes submetidos ao unroofing, acompanhados por uma mediana impressionante de 5 anos.
Houve melhora significativa em todos os domínios do Seattle Angina Questionnaire: limitação física, estabilidade da angina, frequência dos sintomas, qualidade de vida e escore global.
A frequência de angina praticamente saiu de episódios semanais para algo próximo de sintomas mensais.
Mais do que isso: 88,5% dos pacientes apresentaram melhora clinicamente significativa dos sintomas.
Talvez ainda mais interessante tenha sido a comparação com um grupo pareado de pacientes tratados clinicamente. Mesmo após propensity matching, os operados apresentaram maior melhora na limitação física e na frequência de angina, além de menor necessidade de antianginosos no seguimento.
Calma lá antes de sair encaminhando todo mundo para cirurgia rs.
O próprio estudo ajuda a colocar os pés no chão. Estamos falando de um centro extremamente especializado, com altíssimo refinamento diagnóstico, avaliação invasiva sofisticada e seleção rigorosa.
Isso definitivamente não significa que toda ponte merece cirurgia.
Na verdade, talvez a principal mensagem seja justamente a oposta: a enorme maioria continuará sendo manejada clinicamente.
Mas para aqueles pacientes com angina incapacitante, coronárias sem obstrução e uma ponte comprovadamente funcional, talvez esteja na hora de pararmos de tratar a ponte miocárdica apenas como um “achado bonito da tomografia”.
Talvez algumas delas realmente mereçam ser atravessadas.
A retatrutida vem aí
Caiu na Mídia
“Olê, olê, olê, olá. A retatrutida vem aí, e o bicho vai pegar”.
Se a comunidade médica fosse uma torcida de futebol, e a retatrutida a nova “contratação” do nosso time, tenho certeza que estaríamos prontos para buscá-la no aeroporto no dia do seu anúncio oficial rs.
O fato é que ela ainda nem estreou oficialmente nos campos do combate à obesidade, mas já chega com status de “jogador caro".
A farmacêutica Eli Lilly anunciou, essa semana, os resultados preliminares do estudo TRIUMPH-1, o estudo clínico de fase 3 que avaliou a segurança e eficácia da retatrutida, um novo medicamento injetável para o tratamento da obesidade.
Essa medicação atua como um triplo agonista, estimulando três hormônios (GLP-1, GIP e glucagon).
Já dá para imaginar que, comparada à atual “craque da galera”, tirzepatida, a expectativa é que ela entregue resultados ainda melhores em perda de peso.
E foi isso que o estudo veio testar. Foram randomizados um total de 2.339 participantes, que foram divididos em uma proporção de 1:1:1:1 para receber doses de 4 mg, 9 mg, 12 mg de retatrutida ou placebo por uma média de 80 semanas.
As primeiras respostas em campo já inflamaram a torcida:
Na dose máxima de 12 mg, os participantes perderam, em média, 28,3% (31,9 kg / 70,3 lbs) de seu peso corporal.
Aproximadamente 45,3% desses participantes atingiram uma perda de peso ≥30% (a primeira vez que uma medicação chega a números próximos da cirurgia bariátrica).
E mais: 65,3% dos participantes na dose de 12 mg atingiram um IMC inferior a 30 (limiar da obesidade) às 80 semanas.
Expectativas foram criadas.
Claro que os efeitos colaterais precisam ser citados e se assemelham aos de outras medicações emagrecedoras: náusea (28,6%), diarreia (25,2%), constipação (23,8%), vômito (10,6%), infecção do trato respiratório superior (14,2%). A taxa de descontinuação foi de 11% na dose máxima.
Esses são apenas resultados preliminares e a Lilly promete apresentar mais detalhes no congresso da ADA. Além disso, os estudos TRIUMPH 2 e TRIUMPH 3 estão em execução para estudar o efeito da droga em pacientes obesos com diabetes e doença cardiovascular, respectivamente.
⚠️ Por fim, o Ministério da Saúde adverte: a retatrutida ainda está em fase experimental e ainda não foi aprovada pelo FDA, e muito menos pela ANVISA! Ou seja, a sua comercialização, importação e uso no Brasil são proibidos (já pode desaconselhar o seu paciente a comprar canetinhas do Paraguai rs).
Fique por dentro
🦠 Miocardite além do “troponina alta”: a imagem virou protagonista no diagnóstico e manejo. Revisão do Circulation destaca o papel central da ressonância cardíaca na avaliação da miocardite, desde o diagnóstico pelos critérios de Lake Louise até decisões sobre tratamento, prognóstico e retorno ao exercício.
💊 DOAC isolado superou DAPT após oclusão do apêndice atrial, em metanálise randomizada. Análise de estudos randomizados mostrou que monoterapia com anticoagulante oral direto após LAAC reduziu trombose relacionada ao dispositivo em comparação à dupla antiagregação, além de sinalizar menos sangramentos e eventos cardiovasculares/cerebrovasculares.
⚡️ Ablação no SUS: eficaz para tratar arritmias, difícil de acessar no Brasil real. Análise nacional mostra forte desigualdade regional na oferta de procedimentos de eletrofisiologia, concentrados principalmente no Sul e Sudeste, além da existência de centros sem infraestrutura completa.
💸 Semaglutida protege o coração… mas pesa no bolso do sistema de saúde. Simulação americana projeta que o uso da semaglutida em prevenção secundária cardiovascular poderia evitar mais de 350 mil eventos cardiovasculares em pacientes com obesidade ou sobrepeso sem diabetes. O problema? O impacto financeiro é bilionário, e o medicamento só atingiria custo-efetividade ideal com redução adicional no preço.
🏃🏾 A esteira ainda entrega valor na era da angiotomografia coronária. Subanálise do ISCHEMIA mostrou que melhor desempenho funcional no teste ergométrico, medido pelos METs alcançados, se associou a menor mortalidade e adicionou poder prognóstico à angiotomografia em pacientes com DAC crônica e isquemia moderada/importante.
⚠️ Lp(a) não marca apenas risco: ela parece apontar para placas mais perigosas. Estudo com angiotomografia coronária e análise por inteligência artificial mostrou que níveis elevados de Lp(a) se associaram independentemente a placas coronárias de maior vulnerabilidade, especialmente placas não calcificadas de baixa densidade.
🔪 Fechar o apêndice atrial “por garantia” durante cirurgia valvar? O benefício não apareceu. No estudo OPINION, pacientes sem fibrilação atrial prévia, mas com CHA₂DS₂-VASc elevado, não tiveram redução significativa de AVC, AIT ou morte cardiovascular com oclusão profilática do apêndice atrial esquerdo durante cirurgia valvar.
🌳 Vegetação grande e cirurgia de alto risco? A aspiração percutânea entrou no radar da endocardite direita. Documento científico da AHA revisa o uso crescente da aspiração mecânica percutânea para debulking de vegetações em endocardite infecciosa direita, especialmente em pacientes sem resposta adequada ao antibiótico ou com risco cirúrgico elevado.





