O que você verá nesta edição:
🪨 O seu coração em 30 anos: o que o cálcio coronariano em adultos jovens revela sobre a mortalidade nas próximas décadas.
💊 Finerenona vs espironolactona: qual a droga de escolha na IC FEP?
🚑 Insuficiência cardíaca aguda: um consenso organiza o atendimento, das primeiras medidas à decisão de alta.
📰 Fique por dentro: vape e saúde cardiovascular, NT-proBNP na emergência, calcificação com estatinas, cardiologia digital, CMH e gravidez, cirurgia da aorta, diferenças entre os sexos e risco inflamatório residual.
O seu coração em 30 anos
por Maria Júlia Souto
Não venha se fazer de novinho. Talvez os 30 já estejam batendo à sua porta. Ou seriam os 40? Ou até os 50? 🫣
E as evidências não param de nos assustar… O REACT mostrou que cerca de 1 em cada 13 adultos entre 18 e 29 anos já apresentava aterosclerose subclínica em algum dos territórios vasculares avaliados. Sim, antes mesmo de chegar aos 30.
Mesmo assim, seguimos nos acalentando com os escores: “O risco em dez anos é baixo”. E frequentemente é mesmo. Só que uma probabilidade pequena de sofrer um evento na próxima década pode coexistir com uma doença que já começou a se desenvolver.
A pergunta, então, é outra: o que acontece quando damos mais tempo para essa história se desenrolar? Não cinco ou dez anos. Trinta.
Um artigo publicado no JAMA Cardiology trouxe uma nova perspectiva a essa discussão.
Utilizando dados do CAC Consortium, os pesquisadores avaliaram 12.847 adultos entre 30 e 45 anos, assintomáticos e sem doença coronariana conhecida, que haviam realizado escore de cálcio coronariano por indicação clínica em quatro centros americanos. A idade média era de 40,5 anos, e 77% eram homens.
Na coorte, 72% tinham escore de cálcio zero, enquanto 13% estavam acima do percentil 90, com uma mediana do escore de 56 unidades Agatston (70 UA entre os homens e apenas 11 UA entre as mulheres). Ou seja, esperar o cálcio chegar aos três dígitos para prestar atenção pode deixar passar um sinal relevante.
E, claro, esse achado se associou ao prognóstico. Ao longo de um seguimento mediano de 22,6 anos, ocorreram 624 mortes, sendo 149 cardiovasculares e, entre estas, 81 por doença coronariana.
Mesmo após ajustes para idade, sexo e fatores de risco tradicionais, o grupo acima do percentil 90 apresentou maior mortalidade que aquele com cálcio zero: HR de 1,87 para morte por qualquer causa, 2,60 para morte cardiovascular e 3,71 para morte coronariana.
Ok, até aí pouca novidade. Mas o que isso representa quando olhamos para os próximos 30 anos?
Nas estimativas dos pesquisadores, a mortalidade por qualquer causa foi de 12,9% no grupo acima do percentil 90, contra 7,5% entre aqueles com cálcio zero. Para morte cardiovascular, os valores foram de 4,5% versus 1,5%; para morte coronariana, 3,0% versus 0,6%.
São diferenças absolutas de 3 e 2,4 pontos percentuais nos dois últimos desfechos, respectivamente. E estamos falando de mortes, sem contabilizar toda a carga de infartos e outros eventos não fatais.
Antes de sair dizendo que acompanharam todo mundo por três décadas, cabe uma pausa. Apenas 3,5% dos participantes tiveram seguimento superior a 30 anos. As probabilidades nesse horizonte foram estimadas por modelos estatísticos a partir dos dados disponíveis.
O achado central permanece: uma carga de cálcio elevada para a idade identifica um grupo cujo risco se estende muito além da próxima década.
O estudo, porém, não comparou diretamente o desempenho do cálcio com escores de risco em 30 anos. Ele acrescenta informação prognóstica sobre a doença já presente, sem demonstrar que os modelos tradicionais estejam necessariamente “errados”.
E isso significa pedir escore de cálcio para todo mundo aos 30 anos?
❌ O estudo não responde a essa pergunta. Trata-se de uma coorte selecionada, encaminhada para exame por indicação clínica, com predomínio masculino e história familiar de doença coronariana em aproximadamente metade dos participantes. Também não houve randomização para estratégias preventivas, nem informações completas sobre os tratamentos ao longo do seguimento. Assim, os resultados não estabelecem o benefício de um rastreamento universal ou de uma intensidade específica de tratamento.
Para o consultório, a provocação é reconhecer o peso de um achado prematuro. Quando o exame está disponível e o resultado é desproporcional à idade, vale incorporá-lo à discussão sobre prevenção e controle dos fatores de risco, mesmo que a probabilidade de um evento nos próximos dez anos ainda pareça pequena.
Afinal, o paciente de 35 anos não tem apenas os próximos dez anos pela frente. E a prevenção que fazemos hoje precisa levar em conta o coração com o qual ele pretende chegar aos 65.
Finerenona realmente faz diferença?
por Marcos Meniconi
Tem jogos que não são resolvidos em 90 minutos.
Flamenguistas, estamos falando de ciência rs. No futebol, o choro é livre; o tapetão, não…
Mas, quando o assunto é tratamento da insuficiência cardíaca, precisamos olhar além do placar antes de declarar um vencedor.
Esse é o caso dos antagonistas do receptor mineralocorticoide na IC com fração de ejeção levemente reduzida ou preservada. O FINEARTS-HF demonstrou que a finerenona reduz o desfecho combinado de eventos totais de piora da IC e morte cardiovascular em comparação ao placebo, com benefício principalmente relacionado à redução das descompensações.
A dúvida que permanece é outra: ela oferece vantagens sobre a espironolactona?
Um estudo publicado no ESC Heart Failure acrescentou um capítulo a essa discussão.
Utilizando prontuários eletrônicos da rede TriNetX, os pesquisadores compararam adultos com IC e FEVE ≥40% que iniciaram finerenona ou espironolactona entre julho de 2021 e março de 2025. A análise foi retrospectiva, com pareamento por escore de propensão, resultando em 1.417 pacientes em cada grupo e acompanhamento de até 12 meses.
O desfecho primário, composto por morte por qualquer causa ou exacerbação da IC, ocorreu em 32,3% dos pacientes que iniciaram finerenona e em 41,7% daqueles que iniciaram espironolactona, com HR ajustado de 0,72 (IC95% 0,64–0,82).
Aqui, exacerbação foi identificada por registros de atendimento com diagnóstico de IC aguda, agudização de IC crônica ou edema pulmonar agudo, sem se restringir às hospitalizações.
Também foram observadas associações favoráveis à finerenona para mortalidade por qualquer causa (HR ajustado de 0,67), exacerbação da IC (0,73) e hospitalização por qualquer causa (0,83). Não houve diferença significativa na ocorrência de infarto agudo do miocárdio.
Na segurança, a hipercalemia foi registrada em 17,9% do grupo finerenona e em 22,8% do grupo espironolactona (RR 0,79; IC95% 0,68–0,91).
Até aqui, o placar parece favorável, o problema é que os times que entraram em campo foram meio desiguais:
Durante o período estudado, a finerenona era prescrita predominantemente para pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica, enquanto a espironolactona atendia a uma população mais ampla de pessoas com IC.
O pareamento aproximou as características registradas, mas não consegue equilibrar aquilo que o banco de dados não mede adequadamente, como fragilidade, capacidade funcional e intensidade do acompanhamento.
Esses resultados sustentam interpretações próprias, mas não equivalem a uma comparação randomizada entre as duas drogas, nem comprovam, isoladamente, superioridade de segurança de uma sobre a outra.
Assim, a questão já não é simplesmente se a finerenona faz diferença: há evidência randomizada de benefício em relação ao placebo. O que este estudo acrescenta é uma associação favorável quando comparada à espironolactona na prática clínica, especialmente em uma população com perfil cardiorrenal.
Para declarar superioridade entre elas, ainda precisamos de um confronto direto randomizado. Até lá, o placar chama atenção, mas ainda tem jogo pela frente.
Insuficiência cardíaca aguda: da admissão à alta
por Maria Júlia Souto
O paciente chega à emergência com dispneia, edema e uma lista de medicamentos que nem ele sabe. O diagnóstico de insuficiência cardíaca parece provável, mas a próxima decisão exige mais do que reconhecer a congestão: é preciso entender como ela se instalou, avaliar a perfusão e definir o que precisa ser tratado primeiro.
Um consenso publicado no European Heart Journal, elaborado por associações da ESC em conjunto com a Sociedade Europeia de Medicina de Emergência, revisita esse percurso, do atendimento pré-hospitalar à decisão entre alta, observação e internação. A proposta é organizar as primeiras horas de cuidado conforme a apresentação clínica e a resposta ao tratamento.
O ponto de partida é reconhecer quatro apresentações principais: IC agudamente descompensada, edema agudo de pulmão, falência ventricular direita isolada e choque cardiogênico. Esses cenários têm prioridades diferentes. No edema pulmonar hipertensivo, por exemplo, a redistribuição de volume pode predominar, colocando o suporte ventilatório e a redução da pós-carga em destaque.
Na investigação, clínica, ECG, peptídeos natriuréticos, troponina e avaliação renal devem ser integrados à imagem. O ultrassom pulmonar e a ecocardiografia à beira do leito ajudam a reconhecer congestão, avaliar a função cardíaca e identificar diagnósticos alternativos. Em paralelo, é fundamental procurar o precipitante da descompensação.
Entre as medidas iniciais, o documento destaca:
Suporte respiratório conforme a necessidade: oxigênio na hipoxemia, particularmente com SpO₂ <90%, e ventilação não invasiva precoce no edema pulmonar com desconforto respiratório, quando não houver contraindicação.
Diurético EV com reavaliação da resposta: furosemida 40 mg nos pacientes sem uso prévio; nos usuários crônicos, dose inicial ao menos equivalente à dose oral diária, podendo chegar ao dobro.
Diurese ≥150 mL/h e sódio urinário de aproximadamente 50–70 mEq/L ajudam a identificar resposta adequada.
Vasodilatação em pacientes selecionados: especialmente na apresentação hipertensiva ou com redistribuição de volume, respeitando a pressão arterial. Inotrópicos e vasopressores são reservados aos cenários com hipoperfusão e instabilidade.
Depois da primeira prescrição, começa uma etapa igualmente importante: verificar se o tratamento funcionou. Persistência de congestão deve motivar reavaliação da estratégia diurética. Já uma elevação discreta da creatinina, isoladamente, não deve levar à interrupção automática da descongestão; sua interpretação depende da perfusão, da evolução clínica e da congestão residual.
O consenso também chama atenção para uma decisão que frequentemente recebe menos cuidado: o destino do paciente após a melhora inicial. Alívio da dispneia, sozinho, não garante segurança para alta. Escores como EHMRG e MEESSI-AHF podem complementar o julgamento clínico, considerando estabilidade, resposta terapêutica, comorbidades e condições de acompanhamento.
Após a estabilização, deve-se aproveitar a oportunidade para manter ou iniciar terapias modificadoras de doença, conforme o fenótipo e a tolerância. Para quem vai para casa, o plano precisa incluir tratamento de manutenção, orientações e reavaliação em até sete dias. A melhora na emergência é apenas o começo da recuperação.
Sem dúvidas um consenso prático e muito útil para a prática diária. Vale a leitura! (e quem sabe uma DozePrime?! 👀)
Fique por dentro
🚭 Vape é menos nocivo que cigarro? Para o coração dos jovens, o sinal de alerta já acendeu! Estudo com 58 adultos jovens, sem fatores de risco cardiovascular, mostrou que usuários diários de cigarros eletrônicos apresentavam pior função vascular e menor capacidade cardiorrespiratória em comparação aos que nunca utilizaram nicotina.
🚨 NT-proBNP na emergência: 300 para excluir, mas a idade importa para confirmar! Metanálise com quase 27 mil pacientes mostrou que valores ≤300 ng/L apresentam excelente sensibilidade (98%) para afastar insuficiência cardíaca aguda em pacientes com dispneia.
🪨 Cálcio amigo? Nem toda calcificação coronariana é sinal de piora da aterosclerose! Análise do estudo CAUGHT-CAD mostrou que o uso de estatinas esteve associado à redução de placas não calcificadas e ao aumento de cálcio de maior densidade na angiotomografia coronariana.
🤖 Da inteligência artificial aos wearables: a cardiologia digital já saiu do laboratório e chegou à prática clínica! Revisão com foco na população asiática explora como algoritmos preditivos, inteligência artificial multimodal e dispositivos digitais estão transformando a prevenção, o diagnóstico e o acompanhamento cardiovascular.
🤰🏻 Cardiomiopatia hipertrófica e gravidez: na maioria das vezes, uma combinação possível, mas que exige planejamento! Revisão State-of-the-Art do JACC mostra que a gestação costuma ser bem tolerada em mulheres de baixo risco, enquanto obstrução importante da via de saída do ventrículo esquerdo e disfunção sistólica aumentam o risco materno-fetal.
🫀 Cirurgia da aorta: uma solução multidisciplinar. Documento da AHA mostra a importância das diversas especialidades envolvidas no planejamento e execução de pacientes com aortopatia grave que requerem cirurgia.
🚹🚺 Doença cardiovascular em homens e mulheres: o peso é semelhante, mas as causas contam histórias diferentes! Análise do Global Burden of Disease em 55 países europeus mostrou que as mulheres concentraram 55% dos casos cardiovasculares em 2023, com menor participação da doença isquêmica e maior contribuição da doença arterial periférica.
🔥 A inflamação pode ser a peça que falta! Estudo do Mount Sinai com quase 3.900 pacientes submetidos à angioplastia mostrou que, mesmo com fatores de risco controlados, a presença de inflamação residual (PCR ≥2 mg/L) esteve associada ao dobro do risco de morte, infarto ou AVC em um ano.





