Onde a FA se esconde
O diagnóstico precoce da fibrilação atrial começa no pulso
Quando a FA aparece… no seu pulso!
por Diandro Mota
Monitoramento contínuo com smartwatch detecta muito mais fibrilação atrial (FA) do que o cuidado tradicional.
Essa foi a mensagem de um estudo randomizado e controlado, publicado esta semana, no JACC.
Pesquisadores holandeses acompanharam 437 pacientes com 65 anos ou mais, todos com risco tromboembólico elevado (definido por CHA₂DS₂-VASc ≥2 para homens e ≥3 para mulheres).
Os participantes foram randomizados para duas estratégias bem diferentes:
Cuidado usual, como fazemos no dia a dia;
Monitoramento contínuo com smartwatch, usando um Apple Watch por seis meses, com fotopletismografia e ECG de uma derivação.
Detalhe importante: todos os traçados gerados pelo relógio eram avaliados remotamente por uma equipe independente em até 24 horas.
E o resultado impressiona logo de cara.
A FA de início recente foi diagnosticada em 9,6% dos pacientes do grupo com smartwatch, contra apenas 2,3% no grupo controle.
Na prática? Mais de quatro vezes mais diagnósticos quando o monitoramento contínuo entra em cena.
Mas o dado mais relevante não é só o número. Muitos episódios identificados no grupo do smartwatch eram completamente assintomáticos. A FA paroxística apareceu nos dois grupos, mas os episódios silenciosos praticamente só foram capturados quando havia vigilância contínua.
🎯 Aqui está o ponto que muda o jogo. Detectar FA precocemente permite iniciar anticoagulação quando indicada, reduzir de forma significativa o risco de AVC e impactar diretamente a morbidade, mortalidade e custos em saúde.
Para pacientes idosos, hipertensos, diabéticos ou com histórico cardiovascular, esse tipo de rastreamento deixa de ser acessório, e passa a ser estratégico.
Mas o óbvio precisa ser dito: a tecnologia não substitui o médico. O smartwatch não fecha diagnóstico sozinho, não prescreve e não decide tratamento. Esse foi um estudo de diagnóstico, mas para mudança de desfecho é essencial o manejo clínico contínuo.
A prevenção cardiovascular está deixando de ser episódica e caminhando para um modelo contínuo, mais próximo da fisiologia real do paciente. Silenciosa como a FA, mas muito mais vigilante.
O futuro da cardiologia não está apenas no hospital ou no consultório. Ele já começou no pulso do paciente.
Quando a evidência envelhece?
por Marcos Meniconi
Em que momento o que foi revolucionário passa a ser apenas histórico?
Quando evidências sólidas, construídas em outro contexto, envelhecem a ponto de não responderem mais às perguntas do presente?
É exatamente essa provocação que Harlan Krumholz traz no editorial do Journal of the American College of Cardiology desta semana, ao discutir algo que raramente fazemos de forma sistemática: a “meia-vida” das evidências clínicas.
A medicina evolui. A fisiopatologia muda, os tratamentos adjuvantes se transformam, o risco basal dos pacientes não é mais o mesmo. Ainda assim, muitos estudos seguem sendo tratados como se fossem atemporais, citados como evidência nível 1A décadas depois de publicados. Um ensaio pode manter validade interna impecável e, ao mesmo tempo, perder validade externa. O problema é que quase nunca paramos para perguntar quando isso acontece.
O exemplo mais didático vem dos betabloqueadores no pós-infarto. Durante mais de 40 anos, seu uso foi praticamente indiscutível, sustentado por trials históricos dos anos 1980.
Estudos fundamentais, que salvaram vidas. Mas realizados em uma era sem reperfusão rotineira, sem estatinas de alta intensidade, sem dupla antiagregação e com infartos maiores, mais arritmias e risco basal muito mais elevado.
Avançando para 2025, o cenário mudou, e os resultados também. Ensaios randomizados recentes e meta-análises com dados individuais mostraram um quadro bem mais nuançado:
pacientes com fração de ejeção preservada não parecem se beneficiar do uso prolongado de betabloqueadores;
já aqueles com fração de ejeção levemente reduzida ainda podem apresentar redução de eventos;
o benefício absoluto é menor e a necessidade de individualização, maior.
Não há contradição real entre os estudos. Há, sim, perguntas diferentes sendo feitas em populações diferentes, em uma medicina completamente diferente.
O ponto central não é “abandonar” evidências antigas, mas entender o contexto em que elas nasceram. O editorial chama atenção para algo incômodo, porém essencial: existe uma inércia da evidência.
Recomendações classe I persistem não porque foram reafirmadas, mas porque nunca foram reavaliadas. Diretrizes trabalham com o que existe, não com o que idealmente deveria ser testado.
A mensagem vai além dos betabloqueadores. Hipertensão, insuficiência cardíaca, cardiologia intervencionista: boa parte das nossas decisões ainda se apoia em estudos feitos em mundos que já não existem. Se os trials têm meia-vida, nossos sistemas de geração de evidência precisam ser mais ágeis, adaptáveis e contínuos.
No fim das contas, a provocação é simples e poderosa: evidência envelhece.
A medicina avança. O erro é deixar nossos reflexos clínicos presos ao passado enquanto os pacientes vivem no presente.
Talvez esteja na hora de perguntar com mais frequência: isso ainda faz sentido hoje?
A teoria é linda, mas a prática…
por Maria Júlia Souto
Monitorização domiciliar da pressão arterial virou mantra nas diretrizes. Está em todas: diagnóstico, ajuste terapêutico, seguimento. Na teoria, parece simples. Na prática, nem tanto.
Um estudo publicado no JAMA Cardiology resolveu olhar para o “mundo real”: mesmo com aparelho grátis, educação estruturada e suporte contínuo, o engajamento dos pacientes ao controle domiciliar foi baixo.
Foram analisados 3.390 pacientes com hipertensão não controlada, acompanhados em um programa remoto entre 2018 e 2022. Todos receberam aparelhos automáticos, orientação detalhada e acompanhamento por navegadores de saúde, com ajuste medicamentoso guiado por algoritmo. O cenário ideal, certo?
Nem tanto.
Quase um terço dos pacientes (32,7%) não registrou uma única medida de pressão. Zero. Nada. E quando olhamos para o mínimo esperado pelo próprio programa, quase metade não atingiu o número mínimo de aferições semanais.
O perfil dos pacientes não era “baixo risco”: idade mediana de 61 anos, pressão sistólica média de 143 mmHg, alta prevalência de doença aterosclerótica e diabetes. Ou seja, justamente quem mais se beneficiaria da monitorização regular.
O fato é: há um abismo entre o que as diretrizes recomendam e o que os pacientes conseguem (ou querem) fazer no dia a dia. Não faltou aparelho, nem informação, nem acesso. Faltou adesão.
Os autores levantam uma reflexão interessante para a saúde digital: talvez o problema não seja convencer o paciente da importância de medir a pressão, isso ele até entende. Mas se quisermos melhorar o controle da hipertensão, precisamos ir além do simples “meça em casa” e pensar em formas mais simples, menos onerosas e mais automáticas de monitorização, que exijam menos esforço ativo do paciente.
Formação médica brasileira em xeque
Caiu na Mídia
A manchete da vez não veio de uma revista científica, veio direto do Ministério da Educação.
E preocupa.
O MEC divulgou os resultados da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) e o saldo acendeu um alerta importante sobre a qualidade da formação médica no Brasil.
O Enamed é uma prova anual aplicada pelo Ministério da Educação, por meio do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, com um objetivo claro: avaliar como os cursos de Medicina estão formando seus futuros médicos.
Entre 351 cursos avaliados:
🔴 24 receberam conceito 1 (o pior possível)
🔴 83 ficaram com conceito 2
🟢 80 obtiveram conceito 3
🟢 114 alcançaram conceito 4
🟢 49 chegaram ao conceito 5
Ou seja: 107 cursos ficaram nos conceitos mais baixos (1 e 2) e entraram na mira de sanções, dos quais mais de 60% foram faculdades privadas com fins lucrativos.
Nas universidades públicas federais, 87,6% dos cursos alcançaram os conceitos mais altos. Entre as estaduais, esse percentual foi de 84,7%.
Chocante, realmente. Quem poderia imaginar que abrir cerca de 2.500 novas vagas por ano ao longo da última década e virar o segundo país com mais faculdades de medicina no mundo (atrás apenas da Índia) poderia ter algum impacto na qualidade da formação médica?
O que importa é: e agora?
Segundo o ministro da Educação, Camilo Santana, 99 cursos sofrerão penalidades (instituições estaduais e municipais ficam fora da alçada direta do MEC). As medidas incluem:
Suspensão total de ingresso de novos alunos (8 cursos)
Redução de 50% das vagas + suspensão do Fies e programas federais (13 cursos)
Redução de 25% das vagas + suspensão do Fies (33 cursos)
Proibição de ampliar vagas (45 cursos)
Além disso, as instituições terão prazo para apresentar defesa antes da aplicação definitiva das sanções.
No fim das contas, isso ainda é pouco. Não estamos discutindo notas ou rankings, mas qualidade da formação médica e, em última instância, segurança do paciente.
Controlar vagas é só o começo. O debate precisa avançar para fechamento de escolas sem condições mínimas de ensino, critérios mais rigorosos para abertura de novos cursos (considerando demanda populacional, estrutura hospitalar e corpo docente qualificado) como também, expansão e fortalecimento das residências médicas.
O Enamed escancara o óbvio que insistimos em ignorar: expandir sem critério pouco resolve a questão da saúde pública no país.
Fique por dentro
⏰ Pacing fisiológico no radar! O NEJM alerta: pacientes com alto risco de estimulação ventricular convencional podem se beneficiar da TRC precoce. A seleção adequada é chave para evitar remodelamento adverso.
🚹🚺 Muitas diferenças existem na fisiopatologia da doença coronariana entre homens e mulheres. Embora muito se fale, há poucos artigos que descrevem bem estes achados. Esta semana o artigo de revisão do EHJ versa brilhantemente sobre o assunto.
💨 Poluição, poluição, poluição… A AHA publicou um documento a respeito do risco cardiovascular associado às diferentes formas de poluição: sonora, visual, química, dentre outros… Qual o real impacto destes fatores em eventos CV?
👴🏼 Idoso atleta = sinal de alerta? Estudo com triatletas e ciclistas acima de 50 anos revelou que 1 em cada 4 apresentou arritmia ventricular, principalmente taquicardia ventricular não sustentada. Os eventos foram mais frequentes durante o exercício e associados à presença de fibrose miocárdica na ressonância.
🧲 Ressonância magnética: a lupa que faltava para o IC FEP? Quando o eco não explica os sintomas, a RMC pode trazer o diagnóstico real. O estudo reforça o papel da ressonância no refinamento diagnóstico e estratificação de pacientes com disfunção diastólica.
🫀Avaliamos igual, mas o coração feminino sofre mais. Estudo multicêntrico publicado no JAMA mostra que mulheres com insuficiência aórtica e fração de ejeção preservada têm remodelamento ventricular diferente dos homens e pior sobrevida sob tratamento clínico. O uso de volumes (LVESVi) ao invés de diâmetros (LVESDi) pode melhorar a estratificação, com cortes ideais distintos por sexo.





