Autora: Maria Júlia Souto (cardiologista e especialista em imagem cardiovascular pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia)
Tenho certeza de que você conhece bem os SMuRFs. E não estou falando dos bichinhos azuis que fogem do Gargamel.
Aqui eles representam os principais vilões da cardiologia: os Standard Modifiable Risk Factors, ou, no bom e velho português, os fatores de risco modificáveis.
Ou seja, aqueles conhecidos fatores de risco que fazem parte de todas as calculadoras: hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo…
O problema é que, apesar de conhecermos esses vilões há décadas, e de persegui-los com bastante empenho, temos falhado mais do que o próprio Gargamel. As doenças cardiovasculares seguem firmes como a principal causa de morte no mundo, respondendo por cerca de 1/3 dos óbitos globais.
Estranho, não?! Doenças com fatores de risco tão bem descritos, mensuráveis e, em teoria, preveníveis… e ainda assim vencendo essa batalha com tanta folga.
Pela lógica, seria de se esperar que, com o avanço no diagnóstico, no tratamento e no controle dos fatores de risco clássicos, a mortalidade cardiovascular estivesse em queda consistente ao longo dos anos. Mas não é isso que os dados mostram, especialmente fora dos países de alta renda.
A essa altura, você provavelmente já matou a charada: olhar apenas para os SMuRFs não é mais suficiente.
Está mais do que na hora de ampliarmos o foco e entendermos outros determinantes que influenciam (e muito!) o risco cardiovascular dos nossos pacientes. Fatores que não entram nas calculadoras, mas moldam o risco desde muito antes do primeiro consultório: o contexto social, o ambiente em que se vive, o acesso a cuidados de saúde e as políticas públicas.
É exatamente isso que vamos discutir hoje, guiados pelo estado da arte:
Social factors, health policy, and environment: implications for cardiovascular disease across the globe, publicado no European Heart Journal em 2025.


