Autora: Maria Júlia Souto (cardiologista e especialista em imagem cardiovascular pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia)
Na última DozeNews discutimos o seguinte tema “Quando a evidência envelhece?”.
Quando falamos de cardiopatia isquêmica esse tópico parece se encaixar perfeitamente.
Se após a publicação do STICHES, em 2016, a revascularização dos pacientes com IC FER de etiologia isquêmica parecia praticamente indiscutível, tudo começou a mudar após o REVIVED.
Pela primeira vez, um ensaio clínico randomizado contemporâneo, com terapia medicamentosa otimizada e uso amplo de dispositivos, mostrou que a angioplastia não reduziu mortalidade nem hospitalizações por insuficiência cardíaca, mesmo em pacientes com disfunção ventricular grave, doença coronária extensa e viabilidade miocárdica documentada.
O impacto foi imediato: aquilo que por anos foi encarado como um reflexo quase automático, “FE baixa + DAC importante = revascularizar”, passou a exigir uma pausa para reflexão. A pergunta deixou de ser “como revascularizar?” e voltou a ser “se devemos revascularizar”.
Mais do que um embate entre cirurgia e angioplastia, STICH e REVIVED expuseram algo maior: a necessidade de abandonar decisões baseadas apenas em plausibilidade fisiopatológica e revisitar, com mais cuidado, quem realmente se beneficia da revascularização na cardiopatia isquêmica com disfunção ventricular esquerda.
📚 É nesse cenário que entra o estado da arte publicado no JACC em 2025 que será a base da nossa discussão de hoje.
É hora de entender a fisiopatologia, interpretar corretamente os trials e, principalmente, traduzir tudo isso em decisões práticas à beira do leito.


