Autora: Maria Júlia Souto (cardiologista e especialista em imagem cardiovascular)
Há alguns meses, discutimos por aqui a durabilidade das biopróteses após a TAVI. E um dos temas abordados naquela incrível edição foi a trombose subclínica dos folhetos (ou, para nós da imagem, o famoso HALT (hypoattenuated leaflet thickening)).
Apesar de relativamente comum na tomografia, o HALT continua cercado de incertezas para a cardiologia clínica, intervencionista e para a própria imagem.
Qual é o seu verdadeiro significado prognóstico? Precisamos tratar todo HALT assim que ele é identificado?
O Congresso da ESC de 2026 colocou um pouco mais de “pimenta nesse caldo”. Dois estudos, NOTION-4 e ACASA-TAVI, avaliaram se a anticoagulação poderia prevenir a formação do HALT após o implante da TAVI.
No NOTION-4, o uso de um anticoagulante oral direto (DOAC) durante os três primeiros meses reduziu significativamente a prevalência de HALT nesse período: 12,1%, em comparação com 31,8% entre os pacientes que receberam apenas antiagregação plaquetária.
O problema apareceu depois da suspensão do anticoagulante.
Aos 12 meses, a diferença havia praticamente desaparecido: o HALT estava presente em 28,3% dos pacientes inicialmente tratados com DOAC e em 32,2% daqueles mantidos apenas com antiagregação. Além disso, o desfecho combinado de morte, AVC ou sangramento maior ou ameaçador à vida foi numericamente mais frequente no grupo que recebeu anticoagulação por três meses.
Já no ACASA-TAVI, a anticoagulação foi mantida durante os 12 meses de seguimento. Nesse cenário, o HALT foi menos frequente com DOAC do que com ácido acetilsalicílico (16,2% versus 28,6%) sem aumento significativo do desfecho de segurança composto por sangramentos, eventos tromboembólicos e morte.
Ou seja: enquanto o paciente está anticoagulado, a formação do HALT diminui.
Mas… e daí?
Reduzir um achado tomográfico significa preservar a durabilidade da prótese? Isso se traduz em menos AVC, menos disfunção valvar ou maior sobrevida? E o possível benefício compensa o risco de expor rotineiramente pacientes idosos à anticoagulação?
Essas perguntas continuam sem resposta definitiva.
Por isso, o objetivo desta Prime é revisar o que sabemos sobre os mecanismos, o diagnóstico, o prognóstico e o manejo da trombose após a TAVI para, ao final, tentarmos definir uma estratégia prática enquanto aguardamos evidências mais esclarecedoras.
📚 A dica de leitura fica por conta dessa bela revisão do Eurointervention.


