Você verá nesta edição:
🫀 Bala de prata ou de festim? Qual o verdadeiro papel da inflamação no risco cardiovascular?
💰 Vem aí mais uma incretina. A survodutida chega com promessas de perda de peso e reduções importantes da gordura visceral e hepática.
💧 Clear the arteries! Nova análise do CLEAR Outcomes sugere redução de eventos graves relacionados aos membros inferiores.
🇩🇪 Contagem regressiva para o ESC 2026. Os estudos mais aguardados das Hot Lines.
Bala de prata ou de festim?
por Maria Júlia Souto
A hipótese inflamatória entrou na cardiologia com a promessa de resposta para questões que iam além do LDL.
O chamado risco inflamatório residual traz uma lógica muito interessante: a inflamação participa da formação, progressão e ruptura da placa aterosclerótica; níveis elevados de proteína C-reativa ultrassensível (PCR-us) identificam pacientes de maior risco; e a modulação de vias inflamatórias poderia reduzir eventos cardiovasculares sem alterar o LDL-c.
O tema já teve até edições exclusivas da DozePrime e DozeCast:
Tudo muito bonito, até os estudos começarem a aparecer… No último mês, duas notícias colocaram a hipótese inflamatória em lados opostos:
De um lado, uma análise do SELECT sugere que parte do benefício cardiovascular da semaglutida pode passar pela redução da inflamação. Do outro, os resultados preliminares do ZEUS demonstraram que bloquear diretamente a via da interleucina-6 reduziu marcadores inflamatórios (mas não eventos cardiovasculares…).
Na análise secundária pré-especificada do SELECT, ensaio que incluiu 17.604 pacientes com doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida e sobrepeso ou obesidade, mas sem diabetes, a semaglutida reduziu a PCR-us em 37,8% após 104 semanas, em comparação ao placebo.
E o mais interessante foi a cronologia: a queda da PCR-us apareceu já nas primeiras quatro a oito semanas (quando os pacientes tinham perdido apenas cerca de 3% do peso corporal e ainda nem haviam atingido a dose plena de semaglutida).
O efeito apareceu até entre aqueles que praticamente não emagreceram. Nos participantes com perda de peso inferior a 2%, a PCR-us caiu 12% com semaglutida, enquanto permaneceu praticamente inalterada com placebo.
Isso sugere que a ação anti-inflamatória da semaglutida pode não ser apenas consequência passiva da redução do tecido adiposo. Pode haver um efeito adicional, direto ou indireto, sobre vias metabólicas, imunológicas ou inflamatórias.
Por outro lado, a PCR-us pode simplesmente acompanhar outras mudanças benéficas induzidas pela semaglutida, como redução da adiposidade visceral, melhora metabólica, alterações hemodinâmicas ou modificações em outras vias ainda não mensuradas.
Se a análise do SELECT fortaleceu a hipótese inflamatória, a publicação dos resultados preliminares do estudo ZEUS, pela farmacêutica Novo Nordisk, apareceu para jogar um balde de água fria.
O estudo avaliou o ziltivekimabe, um anticorpo monoclonal totalmente humano que bloqueia o ligante da interleucina-6. A expectativa era ambiciosa: reduzir diretamente a inflamação cardiovascular e, com isso, diminuir eventos.
O ensaio incluiu mais de 6.300 pacientes com:
doença cardiovascular aterosclerótica estabelecida;
doença renal crônica;
PCR-us ≥2 mg/L.
Os participantes foram randomizados para ziltivekimabe 15 mg por via subcutânea uma vez ao mês ou placebo, ambos adicionados ao tratamento habitual. O desfecho primário foi MACE em três pontos: morte cardiovascular, infarto não fatal ou AVC não fatal.
Enquanto do ponto de vista biológico, a medicação fez exatamente o que se esperava: houve inibição da via da IL-6, com redução da IL-6 livre e da PCR-us, do ponto de vista clínico, nada aconteceu.
A ziltivekimabe não reduziu MACE em comparação ao placebo: HR 0,99; IC 95% 0,88–1,11.
Também não houve diferença na mortalidade por todas as causas. Eventos adversos e eventos adversos graves foram semelhantes entre os grupos, mas infecções graves ocorreram com maior frequência entre os pacientes que receberam ziltivekimabe (um efeito coerente com a inibição da IL-6).
Por enquanto, conhecemos apenas os resultados principais divulgados pela Novo Nordisk. Os dados completos ainda serão apresentados em congresso científico, portanto não sabemos o tamanho exato da redução da PCR-us, a adesão ao tratamento, os resultados dos componentes individuais nem se algum subgrupo apresentou comportamento diferente.
E então, bala de prata ou de festim?
Apesar da frustração inicial, o ZEUS não demonstra que a inflamação seja irrelevante para a aterosclerose. Tampouco apaga a associação consistente entre PCR-us elevada e eventos cardiovasculares, novamente observada no SELECT.
O que ele questiona é um salto lógico que talvez tenhamos feito rápido demais: se a PCR-us identifica maior risco, então qualquer intervenção capaz de reduzi-la deverá necessariamente diminuir eventos.
A bala de prata pode ainda não ter aparecido, mas a inflamação está longe de ser isenta de culpa.
Vem aí mais uma incretina
por Diandro Mota
Nos últimos anos, o tratamento da obesidade mudou radicalmente com os agonistas de GLP-1 e, depois, com moléculas capazes de atuar em mais de uma via hormonal.
Agora, um novo nome entra nessa corrida: survodutida.
A molécula combina agonismo dos receptores de GLP-1 e glucagon, uma estratégia interessante porque, além da redução do apetite, o glucagon pode acrescentar efeitos sobre metabolismo energético e lipólise.
O estudo fase 3 SYNCHRONIZE-1, publicado no New England Journal of Medicine, avaliou 725 adultos com obesidade ou sobrepeso associado a complicações, mas sem diabetes.
Os participantes receberam survodutida 3,6 mg, 6,0 mg ou placebo por 76 semanas, sempre associada a mudanças no estilo de vida.
📍 Não se perca nos medicamentos incretínicos:
Semaglutida: atua exclusivamente no receptor de GLP-1;
Tirzepatida combina o agonismo dos receptores de GIP e GLP-1;
Survodutida age nos receptores de GLP-1 e glucagon;
Retatrutida atua simultaneamente nas três vias: GIP, GLP-1 e glucagon.
Voltando ao estudo, na análise principal, a perda média de peso foi de:
−12,2% com 3,6 mg;
−13,0% com 6,0 mg;
−5,4% com placebo;
Na análise que estima o efeito entre aqueles que mantiveram adesão ao tratamento, a redução chegou a 15,3% e 16,6%, respectivamente.
Os achados foram além da balança: em um pequeno subestudo com ressonância magnética, a dose de 6 mg esteve associada a reduções de aproximadamente 28% da gordura corporal total, 34% da gordura visceral e 63% da gordura hepática.
Isso levanta uma questão importante: será que diferentes medicamentos para obesidade poderão ser diferenciados não apenas por quanto peso reduzem, mas também por como modificam o metabolismo e a distribuição da gordura corporal?
Os efeitos gastrointestinais foram muito frequentes, atingindo 80,9% a 89,7% dos participantes tratados. Náusea, vômitos, diarreia e constipação foram os eventos mais comuns.
Além disso, sintomas gastrointestinais levaram à interrupção do tratamento em cerca de 18% a 20% dos participantes, o que mostra que tolerabilidade será um ponto importante dessa estratégia.
Ainda não sabemos se a survodutida será superior às opções já disponíveis. O estudo não comparou diretamente a molécula com semaglutida ou tirzepatida.
Também não é possível concluir nada sobre proteção cardiovascular: praticamente não houve eventos no estudo. Um ensaio específico, o SYNCHRONIZE-CVOT, deverá responder essa pergunta.
🎯 O que fica? A survodutida surge como mais uma molécula potente para perda de peso, mas sua importância pode ir além disso.
CLEAR THE ARTERIES!
por Marcos Meniconi
LDL elevado. É comum que aqui a nossa preocupação seja direcionada para os eventos coronarianos.
No entanto, um pouco distante desse centro cardíaco, a doença arterial periférica (DAP) representa alto risco de complicações de eventos graves relacionados aos membros inferiores, tais como: amputação, revascularização, isquemia crítica crônica e isquemia aguda. E, embora o vilão seja o mesmo, os benefícios de uma terapia hipolipemiante sobre as coronárias não podem ser automaticamente extrapolados para a circulação periférica.
Foi para explorar essa questão que pesquisadores do CLEAR Outcomes voltaram aos dados do estudo. O ensaio havia randomizado 13.970 pacientes intolerantes às estatinas para receber ácido bempedoico 180 mg ao dia ou placebo.
Nesta nova análise, o foco foram os 1.624 participantes com DAP no início do estudo e a ocorrência de eventos cardiovasculares e dos membros inferiores (MALEs) ao longo de um seguimento mediano de 40,6 meses.
Vamos aos principais resultados:
Redução do Risco de MALE (Primeiro Evento): O ácido bempedoico reduziu o risco do primeiro MALE em 36% (HR 0,64 [IC 95%, 0,44–0,93]; P=0,018).
Redução Total de MALEs (Eventos Recorrentes): A carga total de MALEs caiu 45% (RR 0,55 [IC 95%, 0,35–0,85]; P=0,007).
Em outras palavras, o tratamento não apenas adiou o primeiro evento grave relacionado ao membro, mas também reduziu o acúmulo de novos episódios ao longo do seguimento. E, em uma doença marcada justamente pela recorrência, olhar apenas para o primeiro evento poderia esconder parte importante do benefício clínico.
Desfechos Compostos (MACE-4 ou MALE):
O ácido bempedoico reduziu em 13% o risco do primeiro evento na população total (HR 0,87; IC 95% 0,80–0,95).
No subgrupo com DAP, houve redução numérica de 18%, mas sem significância estatística isoladamente (HR 0,82; IC 95% 0,64–1,04).
A ausência de interação, entretanto, sugere que o efeito do tratamento foi consistente entre pacientes com e sem DAP.
Os resultados são animadores, mas ainda não representam uma resposta definitiva. Esta foi uma análise secundária de um ensaio cujo desfecho primário não era composto por eventos dos membros, realizada em uma população selecionada por intolerância às estatinas e com um número relativamente pequeno de MALEs. Portanto, o estudo sustenta uma hipótese clinicamente relevante, mas não permite afirmar que o ácido bempedoico deva ser escolhido especificamente para prevenir eventos periféricos.
🎯 Ainda assim, a mensagem é importante: na DAP, reduzir o LDL-c não significa proteger apenas o coração. Significa tratar a aterosclerose em toda a sua extensão, das coronárias até as artérias dos membros inferiores. Para os pacientes que não toleram estatinas ou permanecem fora da meta apesar do tratamento, o ácido bempedoico ganha mais um argumento a seu favor: além de reduzir eventos cardiovasculares, pode também ajudar a manter as artérias, e os membros, livres de novos eventos.
Spoiler alert!
Você já sabe: se tem congresso, tem cobertura da DozeNews!
Pode se preparar porque, na próxima semana, teremos a nossa cobertura especial do Congresso Europeu de Cardiologia (ESC 2026), que acontece de 28 a 31 de agosto, em Munique.
Serão 59 estudos apresentados em 12 sessões de Hot Lines, com potencial para responder algumas das perguntas mais incômodas da prática clínica. Entre os resultados mais aguardados estão:
LIBREXIA ACS: será que a inibição do fator XIa com milvexiana conseguirá reduzir eventos após uma síndrome coronariana aguda sem cobrar o preço do sangramento?
PRESC1SE-MI: o algoritmo de troponina de 0/1 hora é realmente seguro quando aplicado em larga escala? A resposta virá de quase 68 mil atendimentos por suspeita de infarto.
ACACIA-HCM: os inibidores da miosina finalmente encontrarão espaço na cardiomiopatia hipertrófica não obstrutiva? Os dados preliminares com aficamten foram positivos, mas ainda precisamos conhecer a magnitude do benefício, e observar com atenção os efeitos sobre a fração de ejeção.
CARDIO-TTRansform: por que a eplontersena não reduziu o desfecho primário na cardiomiopatia amiloide por transtirretina? Os dados completos poderão mostrar se o tratamento contemporâneo, especialmente o uso concomitante de estabilizadores da TTR, influenciou o resultado.
STAREE: devemos prescrever estatina para prevenção primária em idosos saudáveis com 70 anos ou mais? Poucos estudos têm potencial tão direto para mudar a conversa no consultório.
E isso é apenas uma amostra. Ainda teremos estudos sobre retirada da aspirina na angioplastia primária, troca entre ticagrelor e prasugrel, fisiologia coronariana no STEMI, angiotomografia na dor torácica e muito mais.
Então já sabe: acompanhe o nosso Instagram para conferir os resultados em tempo real, ouça as análises no DozeCast e aguarde a edição especial da DozeNews na próxima semana.
Fique por dentro
💧 Restrição hídrica na insuficiência cardíaca: tradição que não se sustenta nas evidências? Revisão de quatro estudos randomizados não encontrou benefício da restrição de líquidos sobre mortalidade, hospitalizações, classe funcional ou peptídeos natriuréticos.
🏃🏾 ECG de atleta não é tudo igual: a modalidade esportiva também deixa sua assinatura elétrica. Revisão State-of-the-Art publicada no JACC mostra que esportes de endurance, força e modalidades mistas produzem padrões distintos de adaptação no ECG, em sua maioria fisiológicos.
💊 Vutrisiran pode ir além de frear a amiloidose: a ressonância sugere até regressão da carga amiloide. Análise do HELIOS-B mostrou melhora da função biventricular e redução da massa ventricular e do volume extracelular, marcador da infiltração amiloide, com vutrisiran.
📺 Netflix durante o MitraClip? A distração audiovisual pode ajudar a sedar menos. Em estudo randomizado com pacientes submetidos a reparo mitral transcateter (M-TEER), o uso de óculos com vídeos e fones reduziu a necessidade de propofol, além de diminuir a ansiedade e aumentar a satisfação dos pacientes.
📝 Cateterismo ou escore clínico para escolha de doadores? Grupo de Boston (EUA) publica estudo que mostra piores resultados no transplante com doadores com risco CV > 5%. Talvez o primeiro passo e mais importante seja a estratificação clínica de risco CV, advogam os autores.






