Retrospectiva 2025
Diretrizes, grandes trials e polêmicas
Um ano de incertezas
Principais trials do ano
Chegamos à aguardada Retrospectiva 2025.
E, se fôssemos escolher uma palavra para resumir o ano que passou, provavelmente seria incertezas. Afinal, aquele canguru segurando o passaporte é real ou IA?
Vivemos uma avalanche de informações, imagens hiperrealistas, modas transitórias (quem não provou o morango do amor?) e instabilidade ao redor do mundo. Nada parecia totalmente sólido.
Na cardiologia, curiosamente, o movimento foi o oposto. Em meio ao ruído, a ciência tentou organizar o caos, testar certezas antigas e, em alguns momentos, mudar rotas que pareciam imutáveis.
O exemplo mais emblemático veio do uso de beta-bloqueadores após infarto em pacientes com fração de ejeção preservada. O tema foi tão central que rendeu três grande publicações ao longo do ano.
Enquanto o REBOOT-CNIC não mostrou benefício, o BETAMI-DANBLOCK sugeriu efeito protetor.
A confusão só começou a se dissipar com a metanálise que incluiu, além desses, os estudos REDUCE-AMI, DANBLOCK e CAPITAL-RCT. A conclusão, ao menos por ora, foi clara: não há benefício do uso rotineiro de beta-bloqueadores após IAM em pacientes com FEVE > 40%. Um dogma antigo começou oficialmente a cair em 2025.
Ainda no universo da doença arterial coronariana, outra mensagem se consolidou: prevenir antes do evento é caminho sem volta. No VESALIUS-CV, o evolocumabe reduziu infarto, AVC e morte por DAC em pacientes com aterosclerose manifesta ou diabetes, mesmo sem eventos prévios. Na mesma linha, mas indo além do colesterol, o estudo SOUL finalmente mostrou que o benefício da semaglutida oral em redução de mortes e eventos isquêmicos. Ela ainda ganhou destaque na doença arterial periférica: no STRIDE, pacientes com diabetes caminharam mais.
O manejo de pacientes submetidos a TAVI também avançou. Em 2025, os inibidores de SGLT2 mostraram redução de mortalidade por todas as causas e piora de insuficiência cardíaca em pacientes com estenose aórtica tratados por via percutânea.
Com o passar do tempo, outro conceito ficou ainda mais sólido. O seguimento de cinco anos do Evolut Low Risk mostrou resultados semelhantes entre TAVI e cirurgia em mortalidade, AVC e morte cardiovascular. A discussão deixou de ser “qual técnica é melhor?” e passou a ser como planejar o tratamento ao longo da vida, o chamado lifetime management.
No campo dos antitrombóticos, o AQUATIC trial trouxe que a adição de aspirina a pacientes com DAC crônica, alto risco trombótico e já em uso de anticoagulante aumentou sangramento e mortalidade por todas as causas, um recado claro de que menos pode ser mais. Já o ALONE-AF sugeriu segurança na suspensão da anticoagulação após ablação de fibrilação atrial (finalmente!).
E se estamos falando de “finalmentes”, o pequeno RIVAWAR trouxe esperança na inclusão dos DOACs como opção válida no tratamento de trombo de ventrículo esquerdo (open label, de menor monta e encerrado após 3 meses = be careful, doc!).
Em um ano marcado por incertezas fora da medicina, a cardiologia respondeu fazendo o que sabe melhor: testar, revisar e, quando necessário, mudar de rota.
Habemus diretrizes
As grandes diretrizes de 2025
2025 foi um ano curioso para o poder. Enquanto a fumaça mudava de preta para branca, um norte-americano assumia um inédito trono: o pontífice recém-eleito, papa Leão XIV.
Mas não foi o único Yankee a disputar os holofotes. Do outro lado do Atlântico, outro americano tratou de chamar a atenção com uma sequência de tarifaços digna de manchetes.
E se, no Brasil, tem gente começando o ano com um pé só do seu chinelo, ao menos na cardiologia a mensagem foi clara: era hora de organizar a casa.
E haja diretriz! 😅
Se o cenário político foi turbulento, a Sociedade Brasileira de Cardiologia decidiu governar com mão firme em 2025. E governou.
Foi um ano de produção intensa de diretrizes nacionais direcionadas para as mais diversas especialidades da cardiologia.
A Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial consolidou uma visão mais moderna e longitudinal da FA.
Menos obsessão por rótulos e mais atenção ao risco global do paciente, às comorbidades e à decisão compartilhada.
A anticoagulação deixou de ser apenas uma conta matemática e passou a ser, de vez, um exercício clínico.
Na Diretriz de Síndrome Coronariana Crônica a mensagem foi direta: não dá mais para tratar DAC apenas olhando a anatomia.
Imagem funcional, estratificação de risco e manejo individualizado ganharam protagonismo, aproximando a diretriz da vida real do ambulatório brasileiro
O pronto-socorro também ganhou ordem. A Diretriz Brasileira de Atendimento à Dor Torácica na Unidade de Emergência trouxe algoritmos claros, uso racional da troponina de alta sensibilidade e o principal: a consolidação da OCA (obstrução coronariana aguda), indo além da dicotomia “com vs sem supra”.
Outro documento simbólico de 2025 foi a Diretriz Brasileira para o Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares. Em um ano em que o sobrepeso foi central do diagnóstico ao tratamento, a diretriz trata a obesidade oficialmente como doença cardiovascular crônica, com impacto direto em estrutura cardíaca, inflamação e prognóstico. Não é mais “culpa do paciente”, é fisiopatologia
Já a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial podia estar por aqui como no “caiu na mídia”. O seu tom mais rigoroso com os cuidados da PA > 120x80 intitulada como “PA elevada” deu o que falar (e pouco mudou no tratamento medicamentoso e nas metas…).
E, fechando o pacote, a Diretriz Brasileira de Dislipidemias reforçou de vez o conceito de risco cumulativo ao longo da vida, ampliou o papel da lipoproteína(a) e abriu espaço definitivo para terapias além das estatinas em pacientes de alto e muito alto risco.
🇪🇺 Europa: menos papo e mais ação
Enquanto o Brasil organizava a base, a Europa seguiu seu estilo clássico:
menos discurso, mais meta.
O Focused Update das Diretrizes ESC/EAS de Dislipidemias foi quase um decreto econômico: LDL ainda mais baixo, ainda mais cedo (que tal um ezetimibe no hospital já no pós-IAM), especialmente nos pacientes de risco muito alto (e até risco extremo (!)).
As Diretrizes ESC de Miocardite e Pericardite finalmente trouxeram ordem a um território historicamente nebuloso, com maior padronização diagnóstica, papel central da ressonância magnética e critérios mais claros para retorno ao esporte e seguimento.
Outro documento de peso foi a Diretriz ESC de Doença Cardiovascular na Gestação, reforçando a importância do aconselhamento pré-concepcional, da estratificação de risco e do cuidado multidisciplinar, especialmente em cardiopatias congênitas e miocardiopatias.
E, como já virou tradição, a Diretriz ESC/EACTS de Valvopatias empurrarou ainda mais o relógio para frente, ampliando indicações de intervenção percutânea em pacientes assintomáticos selecionados. A mensagem é clara: esperar sintoma pode ser tarde demais.
🇺🇸 Estados Unidos: pragmatismo e consenso
Não é tarifaço de Trump, mas as diretrizes vieram em tons de guias mais longos e pragmáticos.
Em 2025, a AHA/ACC lançou documentos centrais que ajudaram a alinhar prevenção e emergência cardiovascular. A Diretriz Americana de Prevenção, Detecção e Manejo do Risco Cardiovascular reforçou uma abordagem baseada em risco global, estilo de vida e determinantes sociais da saúde, com mensagens claras sobre obesidade, sedentarismo e controle agressivo de fatores modificáveis.
Já a aguardada Diretriz ACC/AHA de Síndromes Coronarianas Agudas trouxe um interessante “reset” conceitual ao u unificou STEMI e NSTEMI sob um mesmo guarda-chuva (e só… rs). Daí poucas novidades, reforçando o papel da estratificação de risco precoce, da via radial, do uso sistemático de imagem intracoronária e da revascularização completa quando apropriada.
Polêmicas que mudaram o jogo
Artigos que deram o que falar
Polêmicas, desconfianças e, no fim, muitos acertos marcaram a cardiologia e o esporte em 2025. Enquanto vimos o “bom e velho” Neymar retornar ao Santos em meio a questionamentos e lesões (e filhos rs), e ainda assim dar conta do recado, também acompanhamos a ascensão meteórica, e já concreta, do tenista João Fonseca.
Na cardiologia, a ousadia veio em forma de estudos. E nada mais justo do que começar pelo NEO-MINDSET, que entrou em campo propondo retirar a aspirina logo após a angioplastia e seguir apenas com um P2Y12 potente. A ideia era sedutora, mas a monoterapia não provou não inferioridade para eventos isquêmicos e ainda levantou alerta para trombose de stent. Não mudou diretriz, mas esfriou um entusiasmo que crescia rápido demais.
Quando parecia que 2025 seria dominado apenas por terapias futuristas, quem voltou aos holofotes foi a digitoxina. No DIGIT-HF, uma droga quase esquecida reduziu o desfecho combinado de morte ou hospitalização por insuficiência cardíaca em pacientes já muito bem tratados. Longe de ser uma vitória incontestável, mas suficiente para reacender a velha discussão sobre o papel dos digitálicos.
Não ganhou nossos corações, mas pelo menos virou uma DozePrime e tanto…!
Em populações historicamente negligenciadas, o PARACHUTE-HF trouxe um avanço simbólico. Finalmente, um ensaio randomizado focado em insuficiência cardíaca por doença de Chagas. O sacubitril/valsartana reduziu NT-proBNP, mas sem impacto claro em desfechos duros.
Biomarcador basta? A polêmica permaneceu, mas o simples fato de existir evidência dedicada já foi uma vitória.
Outros estudos também dividiram opiniões. Como não citar o DECAF, que mostrou que quem consumiu café teve menos recorrência de fibrilação atrial do que quem cortou a cafeína; ou o SMART-CHOICE 3 que reforçou que o clopidogrel foi superior à aspirina em pacientes de alto risco, reduzindo morte, infarto e AVC sem aumentar sangramento?
A insuficiência cardíaca voltou ao centro do debate com o DAPA-ACT HF. Isoladamente, o estudo foi frustrante. Mas a meta-análise mudou o tom da conversa: iniciar inibidor de SGLT2 ainda durante a internação reduziu morte e piora precoce da IC. A discussão deixou de ser “funciona ou não?” e passou a ser “estamos olhando o desfecho certo, no tempo certo?”.
No fim, 2025 foi o ano das viradas inesperadas, das apostas que nem sempre deram certo e das verdades que precisaram ser revistas. Menos dogma, mais crítica. Como no esporte, nem todo jogo termina com troféu, mas alguns mudam o campeonato inteiro.
Estrelas em ascensão
As novas terapias que prometem
Novos protagonistas finalmente saíram do circuito alternativo e chegaram ao palco principal.
Isso vale tanto para o cinema nacional (que enfim colheu reconhecimento com a vitória de Ainda Estou Aqui no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2025 e as indicações de O Agente Secreto no Globo de Ouro de 2026) quanto para a cardiologia, em que terapias emergentes deixaram o papel e começaram a flertar seriamente com a prática clínica.
Se, no cinema, muitos se sentiram simbolicamente vingados da derrota de 1999, na prevenção cardiovascular outro sonho antigo também ficou mais perto de virar realidade: PCSK9 por via oral.
O estudo CORALreef colocou o enlicitide no centro do debate, com reduções relevantes de LDL e uma provocação muito prática: afinal, de que adianta potência sem adesão?
Na cardiologia estrutural, o ALIGN-AR mostrou que tratar insuficiência aórtica nativa por via percutânea começa a sair das sombras do off-label. A experiência com dispositivos dedicados trouxe resultados animadores em pacientes de alto risco, reabrindo uma porta que ficou fechada por anos.
Virou até DozePrime e episódio do DozeCast!
A hipertensão arterial talvez tenha sido o território mais futurista de 2025. Terapias baseadas em interferência por RNA, como o zilebesiran, somadas à consolidação do baxdrostat na hipertensão resistente, apontaram para um novo paradigma: controle pressórico duradouro com poucas doses, atacando eixos fisiopatológicos clássicos com ferramentas modernas.
Na cardiomiopatia hipertrófica, o aficamten deixa definitivamente o status de promessa. Estudos como o MAPLE-HCM reforçaram que essa droga não apenas alivia sintomas, mas compete de igual para igual com terapias tradicionais, reposicionando o centro do tratamento da forma obstrutiva.
O metabolismo lipídico também ganhou novos protagonistas. O olezarsen, ao mirar a APOC3, mostrou reduções expressivas de triglicerídeos, enquanto os primeiros dados de edição gênica contra a ANGPTL3 deixaram claro que modificar permanentemente o risco cardiovascular já não é mais ficção científica.
E, para fechar, até a insuficiência cardíaca teve seu revival. Novas análises dos estudos VICTOR e VICTORIA reposicionaram o vericiguat em um espectro mais amplo de pacientes, lembrando que, às vezes, inovação também é saber revisitar o que já existe.
O algoritmo venceu a evidência
Caiu na Mídia
O dicionário de Oxford escolheu “rage bait” como a palavra do ano. Em bom português, a tal da isca de raiva define conteúdos criados propositalmente para provocar indignação, gerar conflito e, claro, engajamento.
Se você não se lembrou imediatamente de algum post prometendo baixar colesterol com água e limão, culpando a mamografia pelo câncer ou explicando que “chip de testosterona não é anabolizante” (alô, Virgínia! rs), talvez você esteja usando pouco as redes sociais. Sorte a sua.
Enquanto a ciência avançou, os algoritmos decidiram andar para trás.
Não sabemos se é falta de neurônio, de caráter ou apenas excesso de vontade de viralizar. O fato é que, em 2025, a cardiologia virou terreno fértil para desinformação travestida de opinião, experiência pessoal ou “verdade que os médicos não querem que você saiba”.
E o problema não é o post em si. É o alcance.
Pacientes assustados por vídeos virais, suspendendo medicações eficazes, desconfiando de exames consolidados e buscando “alternativas naturais” para doenças que seguem tudo… menos naturais.
Enquanto isso, a cardiologia real, aquela que estuda, publica, erra, corrige e evolui, tenta disputar atenção com certezas absolutas de 30 segundos.
E, no fim, talvez essa seja uma das grandes lições do ano: não basta produzir boa ciência. É preciso comunicar bem, antes que a desinformação comunique mais alto.







